Da Vinci Code::the movie


Procure a verdade. . . TRAILER:: O Codigo da Vinci

Tipo assim...

Codinome Beija-Flor

PRA QUE MENTIR
FINGIR QUE PERDOOUT
ENTAR FICAR AMIGOS
SEM RANCOR
A EMOÇÃO ACABOU
QUE COINCIDÊNCIA É O AMOR
A NOSSA MÚSICA NUNCA
MAIS TOCOU
PRA QUE USAR
DE TANTA EDUCAÇÃO
PRA DESTILAR
TERCEIRAS INTENÇÕES
DESPERDIÇANDO O MEU MEL
DEVAGARZINHO FLOR EM FLOR
ENTRE OS MEUS INIMIGOS,
BEIJA-FLOR
EU PROTEGI TEU NOME
POR AMOR
EM UM CODINOME BEIJA-FLOR
NÃO RESPONDA NUNCA
MEU AMOR
PRA QUALQUER UM NA RUA
BEIJA-FLOR
QUE SÓ EU QUE PODIA
DENTRO DA TUA ORELHA FRIA
DIZER SEGREDOS
DE LIQÜIDIFICADOR
VOCÊ SONHAVA ACORDADA
UM JEITO DE NÃO SENTIR DOR
PRENDIA O CHORO
E AGUAVA O BOM DO AMOR
PRENDIA O CHORO
E AGUAVA O BOM DO AMOR
by Cazuza

HQEH

Homem que é homem. . .rs

Homem que é Homem não usa camiseta sem manga, a não ser para jogar basquete. Homem que é Homem não gosta de canapés, de cebolinhas em conserva ou de qualquer outra coisa que leve menos de 30 segundos para mastigar e engolir. Homem que é Homem não come suflê. Homem que é Homem — de agora em diante chamado HQEH — não deixa sua mulher mostrar a bunda para ninguém, nem em baile de carnaval. HQEH não mostra a sua bunda para ninguém. Só no vestiário, para outros homens, e assim mesmo, se olhar por mais de 30 segundos, dá briga.HQEH só vai ao cinema ver filme do Franco Zeffirelli quando a mulher insiste muito, e passa todo o tempo tentando ver as horas no escuro. HQEH não gosta de musical, filme com a Jill Clayburgh ou do Ingmar Bergman. Prefere filmes com o Lee Marvin e Charles Bronson. Diz que ator mesmo era o Spencer Tracy, e que dos novos, tirando o Clint Eastwood, é tudo veado.HQEH não vai mais a teatro porque também não gosta que mostrem a bunda à sua mulher. Se você quer um HQEH no momento mais baixo de sua vida, precisa vê-lo no balé. Na saída ele diz que até o porteiro é veado e que se enxergar mais alguém de malha justa, mata.E o HQEH tem razão. Confesse, você está com ele. Você não quer que pensem que você é um primitivo, um retrógrado e um machista, mas lá no fundo você torce pelo HQEH. Claro, não concorda com tudo o que ele diz. Quando ele conta tudo o que vai fazer com a Feiticeira no dia em que a pegar, você sacode a cabeça e reflete sobre o componente de misoginia patológica inerente à jactância sexual do homem latino. Depois começa a pensar no que faria com a Feiticeira se a pegasse. Existe um HQEH dentro de cada brasileiro, sepultado sob camadas de civilização, de falsa sofisticação, de propaganda feminina e de acomodação. Sim, de acomodação. Quantas vezes, atirado na frente de um aparelho de TV vendo a novela das 8 — uma história invariavelmente de humilhação, renúncia e superação femininas — você não se perguntou o que estava fazendo que não dava um salto, vencia a resistência da família a pontapés e procurava uma reprise do Manix em outro canal? HQEH só vê futebol na TV. Bebendo cerveja. E nada de cebolinhas em conserva! HQEH arrota e não pede desculpas.
*
Se você não sabe se tem um HQEH dentro de você, faça este teste. Leia esta série de situações. Estude-as, pense, e depois decida como você reagiria em cada situação. A resposta dirá o seu coeficiente de HQEH. Se pensar muito, nem precisa responder: você não é HQEH. HQEH não pensa muito!
Situação 1
Você está num restaurante com nome francês. O cardápio é todo escrito em francês. Só o preço está em reais. Muitos reais. Você pergunta o que significa o nome de um determinado prato ao maître. Você tem certeza que o maître está se esforçando para não rir da sua pronúncia. O maître levará mais tempo para descrever o prato do que você para comê-lo, pois o que vem é uma pasta vagamente marinha em cima de uma torrada do tamanho aproximado de uma moeda de um real, embora custe mais de cem. Você come de um golpe só, pensando no que os operários são obrigados a comer. Com inveja. Sua acompanhante pergunta qual é o gosto e você responde que não deu tempo para saber. 0 prato principal vem trocado. Você tem certeza que pediu um "Boeuf à quelque chose" e o que vem é uma fatia de pato sem qualquer acompanhamento. Só. Bem que você tinha notado o nome: "Canard melancolique". Você a princípio sente pena do pato, pela sua solidão, mas muda de idéia quando tenta cortá-lo. Ele é um duro, pode agüentar. Quando vem a conta, você nota que cobraram pelo pato e pelo "boeuf' que não veio. Você:
a) paga assim mesmo para não dar à sua acompanhante a impressão de que se preocupa com coisas vulgares como o dinheiro, ainda mais o brasileiro;
b) chama discretamente o maître e indica o erro, sorrindo para dar a entender que, "Merde, alors", estas coisas acontecem; ou
c) vira a mesa, quebra uma garrafa de vinho contra a parede e, segurando o gargalo, grita: "Eu quero o gerente e é melhor ele vir sozinho!
Situação 2
Você foi convencido pela sua mulher, namorada ou amiga — se bem que HQEH não tem "amigas", quem tem "amigas" é veado — a entrar para um curso de Sensitivação Oriental. Você reluta em vestir a malha preta, mas acaba sucumbindo. O curso é dado por um japonês, provavelmente veado. Todos sentam num círculo em volta do japonês, na posição de lótus. Menos você, que, como está um pouco fora de forma, só pode sentar na posição do arbusto despencado pelo vento.Durante 15 minutos todos devem fechar os olhos, juntar as pontas dos dedos e fazer "rom", até que se integrem na Grande Corrente Universal que vem do Tibete, passa pelas cidades sagradas da Índia e do Oriente Médio e, estranhamente, bem em cima do prédio do japonês, antes de voltar para o Oriente. Uma vez atingido este estágio, todos devem virar para a pessoa ao seu lado e estudar seu rosto com as pontas dos dedos. Não se surpreendendo se o japonês chegar por trás e puxar as suas orelhas com força para lembrá-lo da dualidade de todas as coisas. Durante o "rom" você faz força, mas não consegue se integrar na grande corrente universal, embora comece a sentir uma sensação diferente que depois revela-se ser câimbra. Você:
a) finge que atingiu a integração para não cortar a onda de ninguém;
b) finge que não entendeu bem as instruções, engatinha fazendo "rom" até o lado daquela grande loura e, na hora de tocar o seu rosto, erra o alvo e agarra os seios, recusando-se a soltá-los mesmo que o japonês quase arranque as suas orelhas;
c) diz que não sentiu nada, que não vai seguir adiante com aquela bobagem, ainda mais de malha preta, e que é tudo coisa de veado.
Situação 3
Você está numa daquelas reuniões em que há lugares de sobra para sentar, mas todo mundo senta no chão. Você não quis ser diferente, se atirou num almofadão colorido e tarde demais descobriu que era a dona da casa. Sua mulher ou namorada está tendo uma conversa confidencial, de mãos dadas, com uma moça que é a cara do Charlton Heston, só que de bigode. O jantar é à americana e você não tem mais um joelho para colocar o seu copo de vinho enquanto usa os outros dois para equilibrar o prato e cortar o pedaço de pato, provavelmente o mesmo do restaurante francês, só que algumas semanas mais velho. Aí o cabeleireiro de cabelo mechado ao seu lado oferece:— Se quiser usar o meu...— O seu...? — Joelho. — Ah...— Ele está desocupado. — Mas eu não o conheço.— Eu apresento. Este é o meu joelho. — Não. Eu digo, você...— Eu, hein? Quanta formalidade. Aposto que se eu estivesse oferecendo a perna toda você ia pedir referências. Ti-au.Você:
a) resolve entrar no espírito da festa e começa a tirar as calças;
b) leva seu copo de vinho para um canto e fica, entre divertido e irônico, observando aquele curioso painel humano e organizando um pensamento sobre estas sociedades tropicais, que passam da barbárie para a decadência sem a etapa intermediária da civilização; ou
c) pega sua mulher ou namorada e dá o fora, não sem antes derrubar o Charlton Heston com um soco.Se você escolheu a resposta a para todas as situações, não é um HQEH. Se você escolheu a resposta b, não é um HQEH. E se você escolheu a resposta c, também não é um HQEH. Um HQEH não responde a testes. Um HQEH acha que teste é coisa de veado.
*
Este país foi feito por Homens que eram Homens. Os desbravadores do nosso interior bravio não tinham nem jeans, quanto mais do Pierre Cardin. O que seria deste pais se Dom Pedro I tivesse se atrasado no dia 7 em algum cabeleireiro, fazendo massagem facial e cortando o cabelo à navalha? E se tivesse gritado, em vez de "Independência ou Morte", "Independência ou Alternativa Viável, Levando em Consideração Todas as Variáveis!"? Você pode imaginar o Rui Barbosa de sunga de crochê? O José do Patrocínio de colant? 0 Tiradentes de kaftan e brinco numa orelha só? Homens que eram Homens eram os bandeirantes. Como se sabe, antes de partir numa expedição, os bandeirantes subiam num morro em São Paulo e abriam a braguilha. Esperavam até ter uma ereção e depois seguiam na direção que o pau apontasse. Profissão para um HQEH é motorista de caminhão. Daqueles que, depois de comer um mocotó com duas Malzibier, dormem na estrada e, se sentem falta de mulher, ligam o motor e trepam com o radiador. No futebol HQEH é beque central, cabeça-de-área ou centroavante. Meio-de-campo é coisa de veado. Mulher do amigo de Homem que é Homem é homem. HQEH não tem amizade colorida, que é a sacanagem por outros meios. HQEH não tem um relacionamento adulto, de confiança mútua, cada um respeitando a liberdade do outro, numa transa, assim, extraconjugal mas assumida, entende? Que isso é papo de mulher pra dar pra todo mundo. HQEH acha que movimento gay é coisa de veado.HQEH nunca vai a vernissage.HQEH não está lendo a Marguerite Yourcenar, não leu a Marguerite Yourcenar e não vai ler a Marguerite Yourcenar.HQEH diz que não tem preconceito mas que se um dia estivesse numa mesma sala com todas as cantoras da MPB, não desencostaria da parede.Coisas que você jamais encontrará em um HQEH: batom neutro para lábios ressequidos, pastilhas para refrescar o hálito, o telefone do Gabeira, entradas para um espetáculo de mímica.Coisas que você jamais deve dizer a um HQEH: "Ton sur ton", "Vamos ao balé?", "Prove estas cebolinhas".Coisas que você jamais vai ouvir um HQEH dizer: "Assumir", "Amei", "Minha porção mulher", "Acho que o bordeau fica melhor no sofá e a ráfia em cima do puf".Não convide para a mesma mesa: um HQEH e o Silvinho.HQEH acha que ainda há tempo de salvar o Brasil e já conseguiu a adesão de todos os Homens que são Homens que restam no país para uma campanha de regeneração do macho brasileiro.Os quatro só não têm se reunido muito seguidamente porque pode parecer coisa de veado.
by Luiz Fernando Verissimo

by

ouvindo >> Coldplay _ Fix You



No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem.
Lembrei de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar aos seus bons clientes quando tinha alguma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia com um sorriso maligno, você vai ver. Era um pouco mais nova que eu, e não sabia dela fazia tantos anos que podia muito bem estar morta. Mas no primeiro toque reconheci a voz no telefone e disparei sem preâmbulos: - É hoje. Ela suspirou: Ai, meu sábio triste, você desaparece vinte anos e volta só para pedir o impossível. Recobrou em seguida o domínio de sua arte e me ofereceu meia dúzia de opções deleitáveis, mas com um senão: eram todas usadas. Insisti que não, que tinha de ser donzela e para aquela noite. Ela perguntou alarmada: Mas o que é que você está querendo provar a si mesmo? Nada, respondi, machucado onde mais doía, sei muito bem o que posso e o que não posso. Ela disse impassível que os sábios sabem de tudo, mas não tudo: Virgens sobrando neste mundo só os do seu signo, dos nascidos em agosto. Por que não encomendou com mais tempo? A inspiração não avisa, respondi. Mas talvez espere, disse ela, sempre mais sabichona que qualquer homem, e me pediu nem que fossem dois dias para revirar o mercado a fundo. Eu repliquei a sério que numa questão dessas, e na minha idade, cada hora é um ano. Então não tem jeito, disse ela sem o menor fiapo de dúvida, mas não importa, assim é mais emocionante, merda, deixa que eu telefono em uma hora. Não preciso nem dizer, porque dá para reparar a léguas: sou feio, tímido e anacrônico. Mas à força de não querer ser assim consegui simular exatamente o contrário. Até o sol de hoje, em que resolvo contar como sou por minha livre e espontânea vontade, nem que seja só para alívio da minha consciência. Comecei com o telefonema insólito a Rosa Cabarcas, porque, visto de hoje, aquele foi o início de uma nova vida, e numa idade em que a maioria dos mortais está morta. Vivo numa casa colonial na calçada de sol do parque de San Nicolás, onde passei todos os dias da minha vida sem mulher nem fortuna, onde viveram e morreram meus pais, e onde me propus morrer só, na mesma cama em que nasci e num dia que desejo longínquo e sem dor. Meu pai comprou a casa num leilão público no final do século XIX, alugou o andar de baixo para lojas de luxo de um consórcio de italianos e reservou-se este segundo andar para ser feliz com a filha de um deles, Florina de Dios Cargamantos, intérprete notável de Mozart, poliglota e garibaldina, e a mulher mais formosa e de melhor talento que jamais houve na cidade: minha mãe. O espaço da casa é amplo e luminoso, com arcos de estuque e pisos axadrezados de mosaicos florentinos, e quatro portas envidraçadas sobre uma sacada corrida onde minha mãe sentava-se nas noites de março para cantar árias de amor com suas primas italianas. Dali se vê o parque de San Nicolás com a catedral e a estátua de Cristóvão Colombo, e mais além os armazéns do cais fluvial e o vasto horizonte do rio grande da Magdalena a vinte léguas de seu estuário. A única coisa ingrata na casa é que o sol vai mudando de janelas no transcurso do dia, e é preciso fechar todas elas para tratar de dormir a sesta na penumbra ardente. Quando fiquei sozinho, aos meus trinta e dois anos, mudei-me para a que tinha sido a alcova de meus pais, abri uma porta de passagem para a biblioteca e para viver comecei a vender o que estava sobrando, e que terminou sendo quase tudo, exceto os livros e a pianola de rolos. Durante quarenta anos fui o domador de telegramas do El Diario de La Paz, tarefa que consistia em reconstruir e completar em prosa indígena as notícias do mundo, que agarrávamos em pleno vôo pelo espaço sideral através das ondas curtas ou do código Morse. Hoje me sustento, mal ou bem, com minha aposentadoria daquele ofício extinto; me sustento menos com a de professor de gramática castelhana e latim, quase nada com a crônica dominical que escrevi sem esmorecimento durante mais de meio século, e nada em absoluto com as resenhas de música e teatro que me publicam de favor nas muitas vezes em que intérpretes notáveis passam por aqui. Nunca fiz nada diferente de escrever, mas não tenho vocação nem virtude de narrador, ignoro por completo as leis da composição dramática, e se embarquei nessa missão é porque confio na luz do muito que li pela vida afora. Dito às claras e às secas, sou da raça sem méritos nem brilho, que não teria nada a legar aos seus sobreviventes se não fossem os fatos que me proponho a narrar do jeito que conseguir nesta memória do meu grande amor. No dia de meus noventa anos havia recordado, como sempre, às cinco da manhã. Por ser sexta-feira, meu compromisso único era escrever a crônica que é publicada aos domingos no El Diario de La Paz. Os sintomas do amanhecer tinham sido perfeitos para não ser feliz: me doíam os ossos desde a madrugada, meu rabo ardia, e havia trovões de tormenta depois de três meses de seca. Tomei banho enquanto passava o café, bebi uma caneca adoçada com mel de abelhas e acompanhada por duas broas de farinha de mandioca, e vesti o macacão de brim de ficar em casa. O tema da crônica daquele dia, é claro, eram os meus noventa anos. Nunca pensei na idade como se pensa numa goteira no teto que indica a quantidade de vida que vai nos restando. Era muito menino quando ouvi dizer que se uma pessoa morre os piolhos incubados no couro cabeludo escapam apavorados pelos travesseiros, para vergonha da família. Isso me impressionou tanto que tosei o coco para ir à escola, e até hoje lavo os escassos fiapos que me restam com sabão medicinal de cinza e ervas milagrosas. Quer dizer, me digo agora, que desde muito menino tive mais bem formado o sentido do pudor social que o da morte. Fazia meses que tinha previsto que minha crônica de aniversário não seria o mesmo e martelado lamento pelos anos idos, mas o contrário: uma glorificação da velhice. Comecei por me perguntar quando tomei consciência de ser velho, e acho que foi pouco antes daquele dia. Aos quarenta e dois anos havia acudido ao médico por causa de uma dor nas costas que me estorvava para respirar. Ele não deu importância: É uma dor natural na sua idade, falou. - Então - disse eu -, o que não é natural é a minha idade. O médico me deu um sorriso de lástima. Vejo que o senhor é um filósofo, disse ele. Foi a primeira vez que pensei na minha idade em termos de velhice, mas não tardei a esquecer o assunto. E me acostumei a despertar cada dia com uma dor diferente que ia mudando de lugar e forma, à medida que passavam os anos. Às vezes parecia ser uma garrotada da morte e no dia seguinte se esfumava. Nessa época ouvi dizer que o primeiro sintoma da velhice é quando a gente começa a se parecer com o próprio pai. Devo estar condenado à juventude eterna, pensei então, porque meu perfil eqüino não se parecerá jamais ao caribenho cru que era meu pai, nem ao romano imperial de minha mãe. A verdade é que as primeiras mudanças são tão lentas que mal se notam, e a gente continua se vendo por dentro como sempre foi, mas de fora os outros reparam. Na quinta década havia começado a imaginar o que era a velhice quando notei os primeiros ocos da memória. Revirava a casa buscando meus óculos até descobrir que os estava usando, ou entrava com eles no chuveiro, ou punha os de leitura sem tirar os de ver de longe. Um dia tomei duas vezes o café da manhã porque me esqueci da primeira, e aprendi a reconhecer o alarme de meus amigos quando não se atreviam a me lembrar que estava contando a mesma história que havia contado na semana anterior. Naquele tempo tinha na memória uma lista de rostos conhecidos e outra com os nomes de cada um, mas no momento de cumprimentar não conseguia que as caras coincidissem com os nomes. Minha idade sexual não me preocupou nunca, porque meus poderes não dependiam tanto de mim como delas, e quando querem elas sabem o como e o porquê. Hoje em dia dou risada dos rapazes de oitenta que consultam o médico assustados por causa desses sobressaltos, sem saber que nos noventa são piores, mas já não importam: são os riscos de estar vivo. Em compensação, é um triunfo da vida que a memória dos velhos se perca para as coisas que não são essenciais, mas raras vezes falhe para as que de verdade nos interessam. Cícero ilustrou isso de uma penada: Não há ancião que esqueça onde escondeu seu tesouro. Com essas reflexões, e tantas outras, havia terminado o primeiro rascunho da crônica quando o sol de agosto explodiu entre as amendoeiras do parque e o barco fluvial do correio, atrasado uma semana por causa da seca, entrou bramando pelo canal do porto. Pensei: Aí estão chegando os meus noventa anos. Jamais saberei por quê, nem pretendo, mas foi ao conjuro daquela evocação arrasadora que decidi telefonar para Rosa Cabarcas pedindo ajuda para honrar meu aniversário com uma noite libertina. Fazia anos que estava na santa paz com meu corpo, dedicado à releitura diária dos meus clássicos e a meus programas privados de música culta, mas o desejo daquele dia foi tão urgente que me pareceu um recado de Deus. Depois do telefonema não consegui continuar escrevendo. Pendurei a rede num canto da biblioteca onde o sol não bate pela manhã, e me estendi com o peito oprimido pela ansiedade da espera. Eu havia sido um menino mimado com uma mãe de dons múltiplos, aniquilada pela tísica aos cinqüenta anos, e com um pai formalista de quem jamais se conheceu erro algum, e que amanheceu morto em sua cama de viúvo no dia em que foi assinado o tratado da Neerlândia, que pôs término à guerra dos Mil Dias e a tantas guerras civis do século anterior. A paz mudou a cidade num sentido que não se previu nem se queria. Uma multidão de mulheres livres enriqueceu até o delírio os velhos bares da rua Ancha, que foi depois o calçadão Abello e agora é o passeio Colón, nesta cidade da minha alma tão apreciada pelos próprios e por alheios pela boa índole da sua gente e a pureza de sua luz. Nunca me deitei com mulher alguma sem pagar, e as poucas que não eram do ofício convenci pela razão ou pela força que recebessem o dinheiro nem que fosse para jogar no lixo. Lá pelos meus vinte anos comecei a fazer um registro com o nome, a idade, o lugar, e um breve recordatório das circunstâncias e do estilo. Até os cinqüenta anos eram quinhentas e catorze mulheres com as quais eu havia estado pelo menos uma vez. Interrompi a lista quando o corpo já não dava mais para tantas e podia continuar as contas sem precisar de papel. Tinha minha ética própria. Nunca participei em farras de grupo nem em contubérnios públicos, nem compartilhei segredos nem contei uma só aventura do corpo ou da alma, pois desde jovem me dei conta de que nenhuma é impune. A única relação estranha foi a que mantive durante anos com a fiel Damiana. Era quase uma menina, mais para forte e xucra, de palavras breves e terminantes, que se movia descalça para não me estorvar enquanto eu escrevia. Recordo que eu estava lendo La lozana andaluza na rede do corredor, e a vi por acaso inclinada no tanque com uma saia tão curta que deixava a descoberto suas coxas suculentas. Presa de uma febre irresistível levantei-a por trás, baixei suas prendas até os joelhos e avancei pelos fundos. Ai, senhor, disse ela, com um queixume lúgubre, isso não foi feito para entrar, mas para sair. Um tremor profundo percorreu seu corpo, mas se manteve firme. Humilhado por tê-la humilhado quis pagar a ela o dobro do que custavam as mais caras daquele tempo, mas não aceitou nem um tostão, e tive que aumentar seu salário com o cálculo de uma montada por mês, sempre enquanto lavava roupa e sempre pela retaguarda. Algumas vezes pensei que aquelas contas de camas seriam uma boa base para uma lista das misérias da minha vida extraviada, e o título me caiu do céu: Memória de minhas putas tristes. Minha vida pública, em compensação, carecia de interesse: órfão de pai e mãe, solteiro sem porvir, jornalista medíocre quatro vezes finalista nos Jogos Florais de Cartagena de Índias e favorito dos caricaturistas por causa da minha feiúra exemplar. Quer dizer: uma vida perdida que havia começado mal desde a tarde em que minha mãe me levou pela mão aos dezenove anos para ver se conseguia publicar no El Diario de La Paz uma reportagem da vida escolar que eu havia escrito na aula de castelhano e retórica. Foi publicada no domingo com um preâmbulo esperançado do diretor. Passados os anos, quando soube que minha mãe tinha pago por aquela publicação e pelas sete seguintes, já era tarde para me envergonhar, pois minha crônica semanal voava com asas próprias, e além do mais eu era o domador de telegramas e crítico de música. Desde que consegui meu diploma de bacharel com grau de excelência comecei a dar aulas de castelhano e latim em três colégios públicos ao mesmo tempo. Fui um mau professor, sem formação, sem vocação nem piedade alguma por aqueles pobres meninos que só iam à escola por ser o jeito mais fácil de escapar da tirania dos pais. A única coisa que pude fazer por eles foi mantê-los debaixo do terror de minha régua de madeira para que pelo menos levassem a lembrança do meu poema favorito: Estes, Fabio, ó dor, que vês agora, campos de solidão, desolados outeiros, foram noutro tempo a Itálica famosa. Só depois de velho fiquei sabendo, e por casualidade, do apelido malvado que os alunos me puseram pelas costas: Professor Desolado Outeiro. Isso foi tudo que a vida me deu e não fiz nada para conseguir mais. Almoçava sozinho entre uma aula e outra, e às seis da tarde chegava na redação do jornal para caçar os sinais do espaço sideral. Às onze da noite, quando fechava a edição, começava minha vida real. Dormia no Bairro Chinês duas ou três vezes por semana, e com tão variadas companhias, que em duas ocasiões fui coroado como cliente do ano. Depois do jantar no vizinho café Roma escolhia um bordel qualquer ao acaso e entrava às escondidas pela porta dos fundos. Fazia isso por gosto, mas acabou sendo parte do meu ofício graças à ligeireza de língua dos grandes falastrões da política, que prestavam conta de seus segredos de Estado às amantes de uma noite, sem pensar que eram ouvidos pela opinião pública através dos tabiques de papelão. Foi desse jeito enfim que descobri que meu celibato inconsolável era atribuído a uma pederastia noturna que se saciava com meninos órfãos da rua do Crime. Tive a sorte de esquecer esse ponto, entre outras boas razões porque também conheci o que se dizia bem de mim e apreciei isso em sua medida e em seu valor. Nunca tive grandes amigos, e os poucos que chegaram perto disso estão em Nova York. Quer dizer: mortos, pois é para lá que eu acho que vão as almas penadas para não digerir a verdade de sua vida passada. Desde que me aposentei tenho pouco a fazer, além de levar meus papéis ao jornal nas tardes de sexta-feira, ou então outras tarefas de pequena monta: concertos no Belas-Artes, exposições de pintura no Centro Artístico, do qual sou sócio fundador, uma ou outra conferência cívica na Sociedade de Melhorias Públicas, ou algum acontecimento grande como a temporada da divina Fábregas no Teatro Apolo. Quando jovem ia aos salões de cinema sem teto, onde tanto podíamos ser surpreendidos por um eclipse lunar como por uma pneumonia dupla por causa de algum aguaceiro desnorteado. Mais, porém, que os filmes me interessavam as pássaras da noite que se deitavam pelo preço da entrada ou davam de graça ou fiado. Pois o cinema não faz meu gênero. O culto obsceno de Shirley Temple foi a gota que transbordou o copo. Minhas únicas viagens foram quatro aos Jogos Florais de Cartagena de Índias, antes dos meus trinta anos, e uma noite ruim na lancha a motor, convidado por Sacramento Montiel para a inauguração de um de seus bordéis em Santa Marta. Quanto à minha vida doméstica, sou de comer pouco e de gostos fáceis. Quando Damiana ficou velha não se tornou a cozinhar em casa, e minha única refeição regular desde então foi a fritada de batatas no café Roma depois do fechamento do jornal. Assim, na véspera de meus noventa anos fiquei sem almoçar e não pude me concentrar na leitura à espera de notícias de Rosa Cabarcas. As cigarras apitavam até arrebentar no calor das duas da tarde, e as voltas do sol pelas janelas abertas me forçaram a mudar três vezes o lugar da rede. Sempre achei que pelos dias do meu aniversário estava o dia mais quente no ano, e tinha aprendido a suportar isso, mas o humor daquele dia não deu para tanto. Às quatro tentei me apaziguar com as seis suítes para cello solo de Johann Sebastian Bach, na versão definitiva de dom Pablo Casals. Acho que é o que de mais sábio existe em toda a música, mas em vez de me apaziguar como de costume me deixaram num estado da pior prostração. Adormeci com a segunda, que me parece um pouco malemolente, e no sonho misturei o queixume do cello com o de um barco triste que se foi. Quase no mesmo instante o telefone me despertou, e a voz enferrujada de Rosa Cabarcas me devolveu à vida. Você tem uma sorte do demônio, disse ela. Encontrei uma franguinha melhor do que você queria, mas tem um porém: ela tem uns catorze anos. Eu não me importo em trocar fraldas, disse a ela em tom de burla e sem entender seus motivos. Não é por você, disse ela, mas quem vai cumprir por mim os três anos de cadeia? Ninguém, e ela menos ainda, é claro. Fazia sua colheita entre as menores de idade que se exibiam em seu armazém, e que ela iniciava e espremia até passarem a vida pior, a de putas diplomadas no bordel histórico da Negra Eufemia. Nunca tinha pago uma única multa, porque seu quintal era a arcádia da autoridade local, do governador até o último bedel da prefeitura, e não era imaginável que à dona daquilo tudo faltassem poderes para delinqüir a seu bel-prazer. Assim, seus escrúpulos de última hora só tinham como justificativa poder levar vantagem com seus favores: quanto mais puníveis, mais caros. A questão se arranjou com um aumento de dois pesos na tarifa dos serviços, e combinamos que às dez da noite eu estaria em sua casa com cinco pesos em dinheiro, e adiantados. Nem um minuto antes, pois a menina tinha que dar de comer aos irmãos menores e pôr na cama sua mãe entrevada pelo reumatismo. Faltavam quatro horas. À medida que passavam, meu coração ia se enchendo de uma espuma ácida que me atrapalhava para respirar. Fiz um esforço estéril para pastorear o tempo com os afazeres da roupa. Nada novo, é claro, pois até Damiana diz que eu me visto com o ritual de um bispo. E me cortei com a navalha barbeira, tive que esperar que a água do chuveiro aquecida pelo sol no encanamento refrescasse, e o simples esforço de me secar com a toalha me fez suar de novo. Eu me vesti de acordo com a ventura da noite: o terno de linho branco, a camisa de listas azuis de colarinho acartolinado com goma, a gravata de seda chinesa, as botinas remoçadas com parafina e o relógio de ouro de lei com a corrente abotoada na casa da lapela. No final dobrei para dentro as barras das calças para que ninguém notasse que com a idade eu diminuíra quatro dedos. Tenho fama de unha-de-fome porque ninguém consegue imaginar que eu seja pobre do jeito que sou se moro onde moro, e a verdade é que uma noite como aquela estava muito acima dos meus recursos. Do cofre das economias disfarçado debaixo da cama tirei dois pesos para o aluguel do quarto, quatro para a dona, três para a menina e cinco de reserva para meu jantar e outros gastos miúdos. Ou seja, os catorze pesos que o jornal me paga por um mês de crônicas dominicais. Escondi o dinheiro num bolso secreto do cinturão e me perfumei com o borrifador de Água de Florida de Lanman & Kemp-Barclay & Co. Então senti a fisgada do pânico e ao primeiro badalar das oito desci tateando as escadas nas trevas, suando de medo, e saí para a noite radiante da minha celebração. Havia refrescado. Grupos de homens solitários discutiam futebol aos berros no passeio Colón, entre os táxis parados em fila no meio da rua. Uma banda de metais tocava uma valsa lânguida debaixo da alameda de flamboyants floridos. Uma das putinhas pobres que caçam clientes mais pobres ainda na rua dos Notários me pediu o cigarro de sempre e respondi a mesma coisa de sempre: Hoje está fazendo trinta e três anos, dois meses e dezessete dias que parei de fumar. Ao passar na frente de O Arame de Ouro me olhei nas vitrines iluminadas e não me vi como me sentia, porém mais velho e mais mal vestido. Pouco antes das dez abordei um táxi e pedi ao chofer que me levasse ao Cemitério Universal, para que ele não ficasse sabendo aonde na verdade eu estava indo. Ele me olhou divertido pelo espelho, e disse: Não me assuste desse jeito, dom Sábio, oxalá Deus me mantenha vivo assim que nem o senhor. Descemos juntos na frente do cemitério porque ele não tinha dinheiro miúdo e tivemos que trocar no La Tumba, um botequim indigente onde os bebadinhos da madrugada choram seus mortos. Quando acertamos a conta, o motorista me disse a sério: Tome cuidado, senhor, que a casa de Rosa Cabarcas já não é nem sombra do que foi. Não pude fazer outra coisa a não ser agradecer, convencido como todo mundo de que para os choferes do passeio Colón não havia nenhum segredo debaixo do céu. Fui adentrando um bairro de pobres que não tinha nada a ver com o que conheci nos meus tempos. Eram as mesmas ruas amplas de areias quentes, com casas de portas abertas, paredes de tábuas ásperas, tetos de sapé e pátios de cascalho. Mas sua gente havia perdido o sossego. Na maioria das casas havia as farras de sexta-feira cujos bumbos e pratos repercutiam nas entranhas. Qualquer um podia entrar por cinqüenta centavos na festa que mais gostasse, mas também podia pegar carona e entrar de contrabando. Eu caminhava ansioso de que a terra me engolisse dentro da minha fatiota de ver Deus, mas ninguém prestou atenção em mim, a não ser um mulato esquálido que cochilava sentado no portão de uma casa da vizinhança. - Salve, doutor! - me gritou de coração -, feliz trepada! Que mais eu podia fazer a não ser agradecer? Tive que me deter três vezes para recobrar o fôlego antes de alcançar a última ladeira. Dali vi a enorme lua de cobre que se erguia no horizonte, e uma urgência imprevista do ventre me fez temer pelo meu destino, mas passou ao largo. No final da rua, onde o bairro se transformava num bosque de árvores frutíferas, entrei no armazém de Rosa Cabarcas. Não parecia a mesma. Havia sido a cafetina mais discreta e por isso mesmo a mais conhecida. Uma mulher corpulenta que queríamos coroar sargenta dos bombeiros, tanto pela corpulência como pela eficácia para apagar os candeeiros da paróquia. Mas a solidão tinha diminuído seu corpo, havia acanelado sua pele e aveludado sua voz com tanto engenho que parecia uma menina velha. De antes, só lhe restavam os dentes perfeitos, com um que tinha mandado forrar de ouro por coqueteria. Guardava luto fechado pelo marido morto depois de cinqüenta anos de vida comum, e o aumentou com uma espécie de boina negra pela morte do filho único que a ajudava em suas vilanias. Só lhe restavam vivos os olhos diáfanos e cruéis, e através deles me dei conta de que ela não tinha mudado de índole. O armazém tinha uma lâmpada macilenta no teto e quase nada para vender nas prateleiras, que nem mesmo cumpriam a função de servir de disfarce para um negócio que todo mundo conhecia mas ninguém reconhecia. Rosa Cabarcas estava despachando um cliente quando entrei na ponta dos pés. Não sei se me desconheceu de verdade ou se havia fingido para manter as aparências. Sentei-me no banquinho de espera enquanto ela se desocupava e tentei reconstruí-la na memória tal como ela havia sido. Mais de duas vezes, nos tempos em que nós dois estávamos inteiros, também ela havia me livrado de meus sustos. Creio que leu meu pensamento, porque virou-se para mim e me examinou com uma intensidade alarmante. O tempo não passa em você, suspirou com tristeza. Eu quis agradá-la: Em você, passa, mas para melhor. De verdade, disse ela, até ressuscitou um pouco em você a cara de cavalo morto. Vai ver é porque mudei de pasto, respondi com picardia. Ela se animou. Pelo que lembro, você tinha um mastro de caravela. Como é que ele tem se portado? Escapei pela tangente: A única coisa diferente desde que nos vimos pela última vez é que às vezes meu rabo arde. Seu diagnóstico foi imediato: Falta de uso. Só tenho rabo para o que Deus fez, disse eu, mas na verdade ardia fazia tempo, e sempre na lua cheia. Rosa remexeu sua gaveta de alfaiate e destapou uma latinha de uma pomada verde que cheirava a linimento de arnica. Diga à menina que unte seu rabo com o dedinho, assim, disse ela movendo o dedo indicador com uma eloqüência procaz. Repliquei que graças a Deus eu ainda era capaz de me defender sem ungüentos selvagens. Ela caçoou: Ai, professor, perdoe e me deixe continuar viva. E foi cuidar de seus assuntos. A menina estava no quarto desde as dez, me disse; era bela, limpa e bem-educada, mas estava morrendo de medo, porque uma amiga dela que escapou com um estivador de Gayra em duas horas tinha sangrado até o fim. Mas, admitiu Rosa, isso dá para entender, porque o pessoal de Gayra tem fama de fazer até as mulas cantarem. E retomou o fio: Pobrezinha, além de tudo tem de trabalhar o dia inteiro pregando botões numa fábrica. Não me pareceu que fosse um ofício tão duro. Isso é o que os homens acham, replicou ela, mas é pior que picar pedras. Além disso, me confessou que tinha dado à menina uma beberagem de valeriana com brometo, e que ela estava dormindo. Tive medo que a compaixão fosse outra artimanha para aumentar o preço, mas não, disse ela, minha palavra é de ouro. Com regras fixas: cada coisa paga por separado, em dinheiro vivo e por antecipado. E assim foi. Segui-a através do pátio, enternecido pela murchidão da sua pele, e pela maneira com que mal caminhava, com as pernas inchadas dentro das meias de algodão ordinário. A lua cheia estava chegando ao centro do céu e o mundo parecia submerso em águas verdes. Perto do armazém havia um cobertiço de palma para as farras da administração pública, com numerosos tamboretes de couro e redes dependuradas nas vigas. Atrás do quintal, onde começava o bosque de árvores frutíferas, havia uma galeria de seis alcovas de adobe sem emboçar, com janelas de tela para os pernilongos. A única ocupada estava à meia-luz, e Toña la Negra cantava no rádio uma canção de amores malogrados. Rosa Cabarcas tomou fôlego: O bolero é a vida. Eu estava de acordo, mas até hoje não me atrevi a escrever isso. Ela empurrou a porta, entrou um instante e tornou a sair. Continua dormindo, disse. Você faria bem em deixá-la descansar tudo o que o corpo pedir, sua noite é mais longa que a dela. Eu estava atordoado: O que você acha que eu devo fazer? Você é que sabe, disse ela com uma placidez fora de lugar, não é à toa que é sábio. Deu meia-volta e me deixou sozinho com o terror. Não havia escapatória. Entrei no quarto com o coração desvairado e vi a menina adormecida, nua e desamparada na enorme cama de aluguel, tal e como sua mãe a tinha parido. Jazia meio de lado, de cara para a porta, iluminada pelo lustre com uma luz intensa que não perdoava detalhe algum. Sentei-me para contemplá-la da beira da cama com um feitiço dos cinco sentidos. Era morena e morna. Tinha sido submetida a um regime de higiene e embelezamento que não descuidou nem os pêlos incipientes de seu púbis. Haviam cacheado seus cabelos e tinha nas unhas das mãos e dos pés um esmalte natural, mas a pele cor de melaço parecia áspera e maltratada. Os seios recém-nascidos ainda pareciam de menino, mas viam-se urgidos por uma energia secreta a ponto de explodir. O melhor de seu corpo eram os pés grandes de passos sigilosos com dedos longos e sensíveis como se fossem de outras mãos. Estava ensopada num suor fosforescente apesar do ventilador, e o calor se tornava insuportável à medida que a noite avançava. Era impossível imaginar como seria a cara lambuzada de cores, a espessa crosta de pó-de-arroz com dois remendos de carmim nas bochechas, as pestanas postiças, as sobrancelhas e pálpebras que pareciam pintadas com tição, e os lábios aumentados com um verniz de chocolate. Mas nem os trapos nem as tinturas eram suficientes para dissimular seu gênio: o nariz altivo, as sobrancelhas encontradas, os lábios intensos. Pensei: Um meigo touro de briga. Às onze fui aos meus assuntos de rotina no banheiro, onde estava sua roupa de pobre dobrada sobre uma cadeira com um esmero de rica: um vestido de algodãozinho barato com borboletas estampadas, umas calcinhas amarelas de chita e umas sandálias de corda trançada. Em cima da roupa havia uma pulseira de miçanga e uma correntinha muito fina com a medalha da Virgem. Na beira da pia, uma bolsinha de mão com um batom, um estojo de ruge, uma chave e umas moedas soltas. Tudo tão barato e envilecido pelo uso que não consegui imaginar ninguém tão pobre como ela. Me despi e dispus as peças de roupa do melhor jeito que pude no cabide para não estropiar a seda da camisa e o linho bem-passado. Urinei na privada sentado e como me ensinou, desde menino, Florina de Dios, para que não molhasse a beira do vaso, e ainda, modéstia à parte, com um jorro imediato e contínuo de potro bravio. Antes de sair cheguei perto do espelho da pia. O cavalo que me olhou do outro lado não estava morto mas lúgubre, e tinha uma papada de Papa, as pálpebras inchadas, e mirradas as crinas que haviam sido minha melena de músico. - Merda - eu disse a ele -, o que é que eu posso fazer se você não gosta de mim? Tratando de não despertá-la, sentei-me nu na cama com os olhos já acostumados aos enganos de luz avermelhada, e revisei-a palmo a palmo. Deslizei a ponta do dedo indicador ao longo de sua nuca empapada e ela inteira estremeceu por dentro como um acorde de harpa, virou-se para mim com um grunhido e me envolveu no clima de seu hálito ácido. Apertei seu nariz com o polegar e o indicador, e ela se sacudiu, afastou a cabeça e me deu as costas sem despertar. Tentei separar suas pernas com meu joelho por causa de uma tentação imprevista. Nas duas primeiras tentativas ela se opôs com as coxas tensas. Cantei em seu ouvido: A cama de Delgadina de anjos está rodeada. Relaxou um pouco. Uma corrente cálida subiu pelas minhas veias, e meu lento animal aposentado despertou de seu longo sono. Delgadina, minha alma, supliquei ansioso. Delgadina. Lançou um gemido lúgubre, escapou de minhas coxas, me deu as costas e enroscou-se como um caracol em sua concha. A poção de valeriana deve ser tão eficaz para mim como para ela, porque não aconteceu nada, nem com ela nem com ninguém. Mas não me importei. Perguntei-me de que adiantaria despertá-la, humilhado e triste do jeito que me sentia, e frio que nem uma pescada amarela. Nítidas, inelutáveis, soaram então as badaladas das doze da noite, e começou a madrugada do 29 de agosto, dia do Martírio de São João Batista. Alguém chorava aos gritos na rua e ninguém dava confiança. Rezei por ele, se fizesse falta, e também por mim, em ação de graças pelos benefícios recebidos: Que ninguém se engane, não, pensando que o que espera haverá de durar mais do que durou o que viu. A menina gemeu em sonhos, e também rezei por ela: Pois eis que tudo haverá de passar dessa maneira. Depois apaguei o rádio e a luz para dormir. Acordei de madrugada sem me lembrar onde estava. A menina continuava dormindo de costas para mim em posição fetal. Tive a sensação indefinida de que havia sentido a maneira como ela se levantava na escuridão e de ter ouvido a descarga do banheiro, mas bem que podia ter sido um sonho. Foi algo novo para mim. Ignorava as manhas da sedução e sempre tinha escolhido ao acaso as noivas de uma noite, mais pelo preço que pelos encantos, e fazíamos amores sem amor, meio vestidos na maior parte das vezes e sempre na escuridão para imaginar-nos melhores. Naquela noite descobri o prazer inverossímil de contemplar, sem as angústias do desejo e os estorvos do pudor, o corpo de uma mulher adormecida. Levantei-me às cinco, inquieto porque minha crônica dominical deveria estar na mesa da redação antes do meio-dia. Fiz minha deposição pontual, ainda com os ardores da lua cheia, e quando soltei a corrente da água senti que meus rancores do passado foram-se embora pelos canos. Quando voltei fresco e vestido ao dormitório, a menina dormia de barriga para cima na luz conciliadora do amanhecer, atravessada lado a lado na cama, com os braços abertos em cruz e dona absoluta da sua virgindade. Que Deus a conserve, disse a ela. Todo dinheiro que me sobrava, o dela e o meu, pus no travesseiro, e me despedi para sempre e nunca mais com um beijo em sua testa. A casa, como todo bordel ao amanhecer, era a coisa mais parecida com o paraíso. Saí pelo portão do pomar para não encontrar ninguém. Debaixo do sol abrasador da rua comecei a sentir o peso dos meus noventa anos, e a contar minuto a minuto os minutos das noites que me faltavam para morrer.

by Gabriel Garcia Marquez

O Jogo Duro

ouvindo>> Black Eyed Peas_Don't Lie

Lendo sobre homens e mulheres no blog Reifous Island by Rafael Augusto, percebi que uma boa porcentagem das pessoas passam por serias dificuldades na vida, e que a humanidade esta baseada em mentiras e fatos erroneamente citados por grandes pensadores. A questão de sobrevivência do homem já é uma questão muito curiosa, nada pode nos dizer precisamente o que aconteceu em uma certa idade no passado. Mas tentamos em desespero entender o que aconteceu no passado para tentar descobrir a nós mesmos hoje. O que somos nesse presente?
O jogo duro entre os sexos é uma conversa para horas, mas temos que adivinhar quem são essas mulheres ou esses homens que não tem a noção da evolução e continuam a se tratam com um certo ‘selvagerismo sheakspeareano’. Como li no blog de meu amigo blospot o exemplo usado seria o filme Flash Dance, alias um filme cheio de americansmo dos anos 80, mas mesmo assim é um filme bom.
Pois bem, nesse filme assim como vários outros da década não trata de um assunto novo, nem interessante, mas de um tipo de evolução da mulher dos anos 80 livre e da não evolução masculina. O jogo que acontece entre eles no filme é chato e velho, talvez seja a intenção, mas mostrava a realidade da época, pois todos queriam ser esses personagens. Agora vemos o que acontece na época seguinte do famoso seriado Sex And the City, para aqueles que acompanharam as aventuras de Carrie e suas amigas solteironas de NY sabem o que acontece durante todo o seriado, elas evoluíram de acordo com a o desenrolar dos acontecimentos e relacionamentos feitos e desfeitos. Mas no final surpresa, voltamos ao Jogo Duro, pois Carrie e Mrs. Big (seu par romântico na série) se conhecem desde do primeiro episódio e entre tantos acontecimentos e vários anos de relacionamento desses personagens o fim é o ‘mesmo’, depois dela Ter dito não depois ele e assim sucessivamente no final do seriado os dois se casam.

O Ponto aqui é dizer que durante todos esses anos os problemas foram vários e individuais, mas detalhes da serie fazem com que o mesmo seja igual a tudo. "Não importa a época, o homem sempre ganha mais, a mulher sempre se parece independente, mas no fim todos cedem um pouco as origens".
Seria tudo para se casar ou Ter alguém ao lado? Será que no fim o que prevalece é o fator da falta de evolução dos casais sobre o amor?
Não sei direito e não sei se algum dia irei saber, mas podemos afirmar que o Jogo Duro, acontece de varias maneiras e de seu próprio jeito em decorrência a sua cultura de origem.

Um exemplo notável é a de Tom Cruize em O Ultimo Samurai, na qual o personagem de Tom mata durante a primeira batalha do filme um Samurai ‘pai de família’, e como o personagem do Tom é capturado na mesma batalha ele se vê obrigado a ser refém dessa nova cultura, e de acordo com a cultura Samurai a mulher do homem que foi morto pelo personagem de Tom, teria por obrigação cuidar dele pois assim dita a cultura. No decorrer do filme rola uma química entre eles, mas a mulher claro sempre é a mais reservada pois eram épocas difíceis para o seu povo e ela ainda teria que aturar o homem que matará o seu marido. Em leis de acontecimentos eis que aparece uma química entre os dois, sendo assim a mulher fica confusa sem saber o que realmente sente sobre esse rapaz que ‘veio de tão longe’, começa a se perguntar o porque o destino teria traçado esse caminho para ela, respostas nunca viriam do vento, mas sim dela. Sendo assim ela foi o mais difícil possível para o rapaz e mesmo assim apenas depois dele se mostrar um real defensor dela , ele mereceu o seu amor impossível. A moral é simples ela não queria reconhecer que o marido dela teria sido o mais fraco nessa luta e que o amor pelo rapaz prisioneiro em sua própria casa seria o seu verdadeiro amor.

Reconheço que são historia diferentes e definidamente épocas diferentes, mas vale lembrar que essas mulhes tem em comum o modo de pensar livremente, e tambem se dar ao luxo de dividir o coração que quem quiser mesmo sabendo quem seria os verdadeiros donos.
Agora que tal isso, o fim desses filmes e series nunca mostram "...até que a morte os separem", então tudo pode acontecer do jeito que imaginarmos, o problema é saber até onde levamos a serio esse sistema de jogo duro.

By Julio Moraes.

Fim de ano é assim...

ouvindo >> Santana & Michelle Branch _ I'm Felling You


É tudo muito simples, imagine quantas vezes a vida seria deferente se voce optasse por outras coisas, lugares, outros caminhos que teriam feito a diferença esperada ou não.
O que interessa é que estas aqui agora livre vivo feliz. Sinta tudo o que nunca sentiu , procure o amor da vida ou apenas fique com as melhores amizades, fim do ano é assim o novo de tudo e o velho de mais ainda. Se imagine nas melhores companhias e se divirta ao extremo, sinta-se em casa longe de casa e sinta-se vivo sem que ninguém precisa te lembrar disso com um beliscão dolorido.
A vida muda mas quem evoluímos somos nós se atenha nas duvidas básicas e desligue o mundo que estas acostumado fim de ano é assim tudo novidade velha. Seja assim ou de outro jeito seja na sua melhor maneira mesmo que seja diferente igualado a todos, acho que assim fica divertido para lembrar-mos de tudo no final.
Fim do ano é assim simplesmente complicado a partir da partida sua, para o novo envelhecido das novas aventuras fantásticas que lembrara até quando se esquecer..
Não analise por o fim do ano é assim, então apenas divirta-se.

By Julio Moraes.

Me alugo para sonhar

by: Gabriel García Márquez


Às nove, enquanto tomávamos o café da manhã no terraço do Habana Riviera, um tremendo golpe de mar em pleno sol levantou vários automóveis que passavam pela avenida à beira-mar, ou que estavam estacionados na calçada, e um deles ficou incrustado num flanco do hotel. Foi como uma explosão de dinamite que semeou pânico nos vinte andares do edifício e fez virar pó a vidraça do vestíbulo. Os numerosos turistas que se encontravam na sala de espera foram lançados pelos ares junto com os móveis, e alguns ficaram feridos pelo granizo de vidro. Deve ter sido uma vassourada colossal do mar, pois entre a muralha da avenida à beira-mar e o hotel há uma ampla avenida de ida e volta, de maneira que a onda saltou por cima dela e ainda teve força suficiente para esmigalhar a vidraça.

Os alegres voluntários cubanos, com a ajuda dos bombeiros, recolheram os destroços em menos de seis horas, trancaram a porta que dava para o mar e habilitaram outra, e tudo tornou a ficar em ordem. Pela manhã, ninguém ainda havia cuidado do automóvel pregado no muro, pois pensava-se que era um dos estacionados na calçada. Mas quando o reboque tirou-o da parede descobriram o cadáver de uma mulher preso no assento do motorista pelo cinto de segurança. O golpe foi tão brutal que não sobrou nenhum osso inteiro. Tinha o rosto desfigurado, os sapatos descosturados e a roupa em farrapos, e um anel de ouro em forma de serpente com olhos de esmeraldas. A polícia afirmou que era a governanta dos novos embaixadores de Portugal. Assim era: tinha chegado com eles a Havana quinze dias antes, e havia saído naquela manhã para fazer compras dirigindo um automóvel novo. Seu nome não me disse nada quando li a notícia nos jornais, mas fiquei intrigado por causa do anel em forma de serpente e com olhos de esmeraldas. Não consegui saber, porém, em que dedo o usava.

Era um detalhe decisivo, porque temi que fosse uma mulher inesquecível cujo verdadeiro nome não soube jamais, que usava um anel igual no indicador direito, o que era mais insólito ainda naquele tempo. Eu a havia conhecido 34 anos antes em Viena, comendo salsichas com batatas cozidas e bebendo cerveja de barril numa taberna de estudantes latinos. Eu havia chegado de Roma naquela manhã, e ainda recordo minha impressão imediata por seu imenso peito de soprano, suas lânguidas caudas de raposa na gola do casaco e aquele anel egípcio em forma de serpente. Achei que era a única austríaca ao longo daquela mesona de madeira, pelo castelhano primário que falava sem respirar com sotaque de bazar de quinquilharia. Mas não, havia nascido na Colômbia e tinha ido para a Áustria entre as duas guerras, quase menina, estudar música e canto. Naquele momento andava pelos trinta anos mal vividos, pois nunca deve ter sido bela e havia começado a envelhecer antes do tempo. Em compensação, era um ser humano encantador. E também um dos mais temíveis.

Viena ainda era uma antiga cidade imperial, cuja posição geográfica entre os dois mundos irreconciliáveis deixados pela Segunda Guerra Mundial havia terminado de convertê-la num paraíso do mercado negro e da espionagem mundial. Eu não teria conseguido imaginar um ambiente mais adequado para aquela compatriota fugitiva que continuava comendo na taberna de estudantes da esquina por pura fidelidade às suas origens, pois tinha recursos de sobra para comprá-la à vista, com clientela e tudo. Nunca disse o seu verdadeiro nome, pois sempre a conhecemos com o trava-língua germânico que os estudantes latinos de Viena inventaram para ela: Frau Frida. Eu tinha acabado de ser apresentado a ela quando cometi a impertinência feliz de perguntar como havia feito para implantar-se de tal modo naquele mundo tão distante e diferente de seus penhascos de ventos do Quindío, e ela me respondeu de chofre:

— Eu me alugo para sonhar.

Na realidade, era seu único ofício. Havia sido a terceira dos onze filhos de um próspero comerciante da antiga Caldas, e desde que aprendeu a falar instalou na casa o bom costume de contar os sonhos em jejum, que é a hora em que se conservam mais puras suas virtudes premonitórias. Aos sete anos sonhou que um de seus irmãos era arrastado por uma correnteza. A mãe, por pura superstição religiosa, proibiu o menino de fazer aquilo que ele mais gostava, tomar banho no riacho. Mas Frau Frida já tinha um sistema próprio de vaticínios.

— O que esse sonho significa — disse — não é que ele vai se afogar, mas que não deve comer doces.

A interpretação parecia uma infâmia, quando era relacionada a um menino de cinco anos que não podia viver sem suas guloseimas dominicais. A mãe, já convencida das virtudes adivinhatórias da filha, fez a advertência ser respeitada com mão de ferro. Mas ao seu primeiro descuido o menino engasgou com uma bolinha de caramelo que comia escondido, e não foi possível salvá-lo.

Frau Frida não havia pensado que aquela faculdade pudesse ser um ofício, até que a vida agarrou-a pelo pescoço nos cruéis invernos de Viena. Então, bateu para pedir emprego na primeira casa onde achou que viveria com prazer, e quando lhe perguntaram o que sabia fazer, ela disse apenas a verdade: "Sonho". Só precisou de uma breve explicação à dona da casa para ser aceita, com um salário que dava para as despesas miúdas, mas com um bom quarto e três refeições por dia. Principalmente o café da manhã, que era o momento em que a família sentava-se para conhecer o destino imediato de cada um de seus membros: o pai, que era um financista refinado; a mãe, uma mulher alegre e apaixonada por música romântica de câmara9 e duas crianças de onze e nove anos. Todos eram religiosos, e portanto propensos às superstições arcaicas, e receberam maravilhados Frau Frida com o compromisso único de decifrar o destino diário da família através dos sonhos.

Fez isso bem e por muito tempo, principalmente nos anos da guerra, quando a realidade foi mais sinistra que os pesadelos. Só ela podia decidir na hora do café da manhã o que cada um deveria fazer naquele dia, e como deveria fazê-lo, até que seus prognósticos acabaram sendo a única autoridade na casa. Seu domínio sobre a família foi absoluto: até mesmo o suspiro mais tênue dependia da sua ordem. Naqueles dias em que estive em Viena o dono da casa havia acabado de morrer, e tivera a elegância de legar a ela uma parte de suas rendas, com a única condição de que continuasse sonhando para a família até o fim de seus sonhos.

Fiquei em Viena mais de um mês, compartilhando os apertos dos estudantes, enquanto esperava um dinheiro que não chegou nunca. As visitas imprevistas e generosas de Frau Frida na taberna eram então como festas em nosso regime de penúrias. Numa daquelas noites, na euforia da cerveja, sussurrou ao meu ouvido com uma convicção que não permitia nenhuma perda de tempo.

— Vim só para te dizer que ontem à noite sonhei com você — disse ela. — Você tem que ir embora já e não voltar a Viena nos próximos cinco anos.

Sua convicção era tão real que naquela mesma noite ela me embarcou no último trem para Roma. Eu fiquei tão sugestionado que desde então me considerei sobrevivente de um desastre que nunca conheci. Ainda não voltei a Viena.

Antes do desastre de Havana havia visto Frau Frida em Barcelona, de maneira tão inesperada e casual que me pareceu misteriosa. Foi no dia em que Pablo Neruda pisou terra espanhola pela primeira vez desde a Guerra Civil, na escala de uma lenta viagem pelo mar até Valparaíso. Passou conosco uma manhã de caça nas livrarias de livros usados, e na Porter comprou um livro antigo, desencadernado e murcho, pelo qual pagou o que seria seu salário de dois meses no consulado de Rangum. Movia-se através das pessoas como um elefante inválido, com um interesse infantil pelo mecanismo interno de cada coisa, pois o mundo parecia, para ele, um imenso brinquedo de corda com o qual se inventava a vida.

Não conheci ninguém mais parecido à idéia que a gente tem de um papa renascentista: glutão e refinado. Mesmo contra a sua vontade, sempre presidia a mesa. Matilde, sua esposa, punha nele um babador que mais parecia de barbearia que de restaurante, mas era a única maneira de impedir que se banhasse nos molhos. Aquele dia, no Carvalleiras foi exemplar. Comeu três lagostas inteiras, esquartejando-as com mestria de cirurgião, e ao mesmo tempo devorava com os olhos os pratos de todos, e ia provando um pouco de cada um, com um deleite que contagiava o desejo de comer: as amêijoas da Galícia, os perceves do Cantábrico, os lagostins de Alicante, as espardenyas da Costa Brava. Enquanto isso, como os franceses, só falava de outras delícias da cozinha, e em especial dos mariscos pré-históricos do Chile que levava no coração. De repente parou de comer, afinou suas antenas de siri, e me disse em voz muito baixa:

— Tem alguém atrás de mim que não pára de me olhar.

Espiei por cima de seu ombro, e era verdade. Às suas costas, três mesas atrás, uma mulher impávida com um antiquado chapéu de feltro e um cachecol roxo, mastigava devagar com os olhos fixos nele. Eu a reconheci no ato. Estava envelhecida e gorda, mas era ela, com o anel de serpente no dedo indicador.

Viajava de Nápoles no mesmo barco que o casal Neruda, mas não tinham se visto a bordo. Convidamos para mulher a tomar café em nossa mesa, e a induzi a falar de seus sonhos para surpreender o poeta. Ele não deu confiança, pois insistiu desde o princípio que não acreditava em adivinhações de sonhos.

— Só a poesia é clarividente — disse.

Depois do almoço, no inevitável passeio pelas Ramblas, fiquei para trás de propósito, com Frau Frida, para poder refrescar nossas lembranças sem ouvidos alheios. Ela me contou que havia vendido suas propriedades na Áustria, e vivia aposentada no Porto, Portugal, numa casa que descreveu como sendo um castelo falso sobre uma colina de onde se via todo o oceano até as Américas. Mesmo sem que ela tenha dito, em sua conversa ficava claro que de sonho em sonho havia terminado por se apoderar da fortuna de seus inefáveis patrões de Viena. Não me impressionou, porém, pois sempre havia pensado que seus sonhos não eram nada além de uma artimanha para viver. E disse isso a ela.

Frau Frida soltou uma gargalhada irresistível. "Você continua o atrevido de sempre", disse. E não falou mais, porque o resto do grupo havia parado para esperar que Neruda acabasse de conversar em gíria chilena com os papagaios da Rambla dos Pássaros. Quando retomamos a conversa, Frau Frida havia mudado de assunto.

— Aliás — disse ela —, você já pode voltar para Viena.

Só então percebi que treze anos haviam transcorrido desde que nos conhecemos.

— Mesmo que seus sonhos sejam falsos, jamais voltarei — disse a ela. — Por via das dúvidas.

Às três, nos separamos dela para acompanhar Neruda à sua sesta sagrada. Foi feita em nossa casa, depois de uns preparativos solenes que de certa forma recordavam a cerimônia do chá no Japão. Era preciso abrir umas janelas e fechar outras para que houvesse o grau de calor exato e uma certa classe de luz em certa direção, e um silêncio absoluto. Neruda dormiu no ato, e despertou dez minutos depois, como as crianças, quando menos esperávamos. Apareceu na sala restaurado e com o monograma do travesseiro impresso na face.

— Sonhei com essa mulher que sonha — disse.

Matilde quis que ele contasse o sonho.

— Sonhei que ela estava sonhando comigo disse ele.

— Isso é coisa de Borges — comentei.

Ele me olhou desencantado.

— Está escrito?

— Se não estiver, ele vai escrever algum dia — respondi. — Será um de seus labirintos.

Assim que subiu a bordo, às seis da tarde, Neruda despediu-se de nós, sentou-se em uma mesa afastada, e começou a escrever versos fluidos com a caneta de tinta verde com que desenhava flores e peixes e pássaros nas dedicatórias de seus livros. À primeira advertência do navio buscamos Frau Frida, e enfim a encontramos no convés de turistas quando já íamos embora sem nos despedir. Também ela acabava de despertar da sesta.

— Sonhei com o poeta — nos disse.

Assombrado, pedi que me contasse o sonho.

— Sonhei que ele estava sonhando comigo disse, e minha cara de assombro a espantou.

— O que você quer? Às vezes, entre tantos sonhos, infiltra-se algum que não tem nada a ver com a vida real.

Não tornei a vê-la nem a me perguntar por ela até que soube do anel em forma de cobra da mulher que morreu no naufrágio do Hotel Riviera. Portanto não resisti à tentação de fazer algumas perguntas ao embaixador português quando coincidimos, meses depois, em uma recepção diplomática. O embaixador me falou dela com um grande entusiasmo e uma enorme admiração. "O senhor não imagina como ela era extraordinária", me disse. "O senhor não resistiria à tentação de escrever um conto sobre ela". E prosseguiu no mesmo tom, com detalhes surpreendentes, mas sem uma pista que me permitisse uma conclusão final.

— Em termos concretos — perguntei no fim —, o que ela fazia?

— Nada — respondeu ele, com certo desencanto. — Sonhava.

Março de 1980

Simples. . .

by Paulo Leminski

I

Confira
tudo que
respira
conspira

II

Tudo é vago e muito vário
meu destino não tem siso,
o que eu quero não tem preço
ter um preço é necessário,
e nada disso é preciso

III

isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

IV

Chora de manso e no íntimo.. procura.
Curtir sem queixa
o mal que te crucia.
O mundo é sem piedade e até riria
Da tua inconsolável amargura.
Só a dor enobrece e é grande e é pura
Aprende a amá-la que a amarás um dia.
Então ela será tua alegria,
E será, ela só, tua aventura...
A vida é vã como a sombra que passa...
Sofre sereno e de alma sobranceira
Se um grito sequer, tua desgraça
Encerra em ti tua tristeza inteira
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua e constante companheira.

Autopsicografia

by Fernando Pessoa

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Nokia Trends 2005

A Nokia promove no próximo dia 24 de setembro o Nokia Trends 2005. O evento será o primeiro do gênero a acontecer simultaneamente nas duas maiores cidades do país - São Paulo e Rio de Janeiro.

O Nokia Trends é o projeto que traz para o público brasileiro as principais tendências artísticas de todo o mundo, promovendo um intercâmbio cultural entre as vanguardas artísticas e culturais. Com esse projeto, a Nokia ajuda o homem a incorporar a tecnologia no seu dia-a-dia e utilizá-la como ferramenta de expressão artística. O Nokia Trends foi concebido baseado na arte multimídia e na música, e foi criado para estimular as novas formas de disseminação e consumo dessa cultura através de meios eletrônicos, não só tradicionais, mas sobretudo os móveis.

No ano de 2004 foi investido no Nokia Trends em toda América Latina algo em torno de US$ 10 milhões. Neste ano a Nokia pretende investir cifras ainda maiores neste conceito de marketing criado no Brasil e que está sendo exportado para outros países da região.

No Nokia Trends 2005 as cidades onde os eventos acontecem estarão conectadas em tempo real via satélite, transmitindo ao vivo entre si os conteúdos gerados de seus eventos uma para a outra. Ou seja, as pessoas que estarão em São Paulo poderão assistir as performances realizadas no Rio de Janeiro em tempo real, e vice-versa. Segundo Anderson Ramos, diretor de marketing da Nokia, "O Nokia Trends é muito mais que um festival, pois além de divulgar as novas tendências em música e arte multimídia, possibilita a fusão com o que há de mais moderno em tecnologia. No site do Nokia Trends, por exemplo, é possível baixar ringtones e papéis de parede de edições anteriores. A idéia é que possamos trabalhar com vanguarda, independentemente se esteja em tecnologia, música ou arte multimídia".

Uma das grandes novidades do Nokia Trends 2005 é que será dividido em três áreas distintas:

Nokia Trends Live

Local onde acontecerão as performances musicais ao vivo e também projeções de VJs especialmente desenvolvidas para o evento. O line-up é focado no equilíbrio entre o novo e o consagrado, priorizando os nomes que mais se destacaram nos últimos dois anos na cena musical, de acordo com o objetivo do Nokia Trends. "O Nokia Trends 2005 tem como objetivo aliar artistas já consagrados com outros que representam a vanguarda da música atual, que tenham tido destaque nos dois últimos anos. O line-up será montado de maneira que todas as atrações tenham uma ligação, trazendo unidade ao evento. Além disso, existe uma constante busca pelo inédito. Por questões contratuais esses nomes ainda não podem ser divulgados. O que podemos adiantar é que sempre surpreenderemos", conclui Allan Macintyre, gerente de marketing responsável pelo Nokia Trends. "Podemos confirmar dois nomes que estão em ascensão na cena eletrônica mundial: Ellen Allien e Carl Craig".

Carl Craig é um dos mais influentes produtores de música eletrônica no mundo. Da segunda geração do tecno de Detroit, berço desse estilo musical, Carl Craig incorpora em seus sets elementos de jazz, soul e house, entre outros estilos musicais. Será sua primeira apresentação no Brasil. A DJ alemã Ellen Allien, da cena de Berlim, é proprietária do selo BPitch Control, e é considerada umas das artistas de vanguarda no universo eletrônico, com um som que está entre o electro e o tecno.

Nokia Trends Connecting Lounge

Espaço que conectará as audiências das cidades participantes do evento através da apreciação e interação de obras de arte multimídia. Dentro dessa área funciona o Espaço "Life Goes Mobile", de conteúdo artístico multimídia, com obras criadas por alguns dos mais renomados mídia-artistas nacionais, com curadoria de Lucas Bambozzi. Essas obras utilizam aparelhos e acessórios Nokia, numa proposta que foca em projetos desenvolvidos especialmente para celulares, que envolvam o sistema de telefonia móvel, ou simplesmente façam uso da tecnologia de ponta oferecida pela Nokia.

Nokia Trends Virtual

Ambiente onde as pessoas poderão acompanhar, através de projeções e equipamentos de última geração, as performances musicais dos artistas e DJs da outra cidade, que estarão realizando suas performances simultaneamente. O investimento será considerável nesta área para que todos os pontos tecnológicos sejam cobertos de forma que as pessoas tenham a real sensação de estarem em um outro evento, mesmo que virtual. Com isso a Nokia também reforça sua missão que é a de conectar as pessoas através de tecnologia de ponta.

As festas de São Paulo e Rio de Janeiro estarão conectadas através do satélite Amazonas, que é um dos mais modernos disponíveis e o último a ter sido lançado no espaço, em setembro de 2004. Serão instaladas nos locais dos eventos unidades de transmissão e recepção móveis que enviarão os sinais diretamente para o espaço, não utilizando nenhum ponto de conexão na terra, com o objetivo de obter maior qualidade na geração e recepção dos sinais.

>> SP e RJ, duas festas uma experiencia inesquecivel <<

Lance Armstrong

"exemplos, são minha inspiraçao para continuar a lutar por outros. . ."

No futebol, é a Copa do Mundo. No ciclismo, a Volta da França. Nunca ninguém havia vencido a principal competição de ciclismo de estrada por seis vezes. Neste domingo, o norte-americano Lance Armstrong ousou chegar ao sétimo título da "Le Tour".

Mais do que o feito heróico, a data marca a despedida do já lendário ciclista das pistas. Aos 33 anos, ele havia afirmado, desde meados de março, que competiria na Volta da França apenas uma vez. "Mas não posso viver sem a Volta. Tenho muita curiosidade por saber o que vai acontecer em 2006", admitiu o heptacampeão, menos de 24 horas de seu último título.

Por si só, a conquista já é louvável. Mas a história de vida de Armstrong faz com que ela seja ainda mais espetacular. Velocista feroz, ele se tornou um dos campeões mundiais mais jovens da história (em 1993, antes de completar 22 anos) e número 1 do ranking mundial (em 1996).

Mas reclamava de dores, fortes dores. Exames constataram um câncer nos testículos, já se alastrando por pulmões e cérebro. A previsão médica de cura era de 50%. Em caso de sobrevivência, o ciclismo seria apenas um passado.

A luta de Armstrong passou a ser para viver. Foi aí que conquistou a sua vitória mais suada, após dolorosas sessões de quimioterapia. Pacientemente, voltou a treinar. Para se reabilitar da doença, treinou incontáveis horas, dias, meses. A velocidade virou resistência. Voltou a disputar a Volta em 1999, como azarão. E foi neste ano que iniciou o maior domínio da prova da história.

No ano passado, já havia se imortalizado com o inédito sexto título, feito que nenhum competidor havia realizado. O sétimo, homologado neste domingo, na verdade, foi vencido no dia 2 de julho, no primeiro dia de competições, com uma etapa contra o relógio entre as cidades francesas de Fromentine e Noirmoutier. A cada minuto, um ciclista saía para o percurso.

Nunca Armstrong havia chegado à Volta sem ter conquistado nenhum título no ano como agora. E minimizou o fato. "Eu não tinha a pressão de vencer como em 2004, quando eu podia bater um recorde. Agora, era um desafio contra mim mesmo."

Mas foi ali, na primeira etapa, que ele mostrou toda a sua força. Último a entrar na pista, viu logo na segunda, terceira pedalada, seu pé direito escapar do pedal. Perdeu tempo para reajustar seu corpo na bicicleta. Mesmo assim, alcançou e superou com extrema facilidade o alemão Jan Ullrich, campeão em 1997 e três vezes vice desde então.

Foi o segundo na classificação geral do dia, dois segundos atrás do compatriota David Zabriskie, e especialistas apostam que o erro nos instantes iniciais lhe custaram a vitória já na etapa de estréia. A tradicional "camisa amarela", dada ao primeiro colocado, veio logo na quarta etapa. E dali em diante, ele simplesmente dominou a prova com maestria para vencer de novo.

Neste domingo, repetiu uma cena já "comum" nos últimos anos. Da mesma forma triunfal, cruzou a linha de chegada na avenida Champs-Elysées, em Paris. O mau tempo fez com que os organizadores declarassem o americano o campeão da etapa antes do término do percurso na avenida mais charmosa da cidade. Mesmo assim, os ciclistas continuaram correndo. O vencedor da 21ª e derradeira prova foi o cazaque Alexander Vinokourov.

Após passar pelo Arco do Triunfo, Armstrong foi recepcionado por seus três filhos, Luke, e as gêmeas Grace e Isabelle, ambas de três anos, e vestindo camisas amarelas do líder como o pai, com o slogan "Vive le Tour, forever" ("Viva a Volta, para sempre").

Do céu ao inferno, Armstrong se despede da Volta no paraíso. "Mas isso não é uma comparação válida. Estamos falando de um esporte. Minha viagem ao paraíso será talvez mais fácil", disse, em tom de brincadeira, o rei do ciclismo mundial.

Mesmo admitindo que "não pode viver sem a Volta", a aposentadoria é definitiva. "Não sei o que vou fazer nesta época do ano em 2006, mas não tenho a intenção de continuar sendo uma figura pública, acho que necessito de privacidade", disse. "Não lamento o fim. Tive uma carreira incrível, com muita sorte, incluindo a bênção de competir por 13 anos como profissional. Mas tenho os pés no chão."

Se os planos para o futuro ainda são uma incógnita, Armstrong já sabe o que vai fazer na segunda-feira. "Quando acordar, ao lado dos meus filhos e da minha mulher [a cantora Sheryl Crow], vou com um grupo de amigos ao sul da França, passear na praia. Comeremos bem, beberemos um pouco de vinho e vamos apenas relaxar", afirmou.

"Meu período se encerrou", concluiu o ciclista, que deixa as pistas para se imortalizar na galeria dos principais atletas do esporte mundial. Mas antes, desabafou e rebateu os críticos, principalmente aqueles que o acusaram de doping. "Tenho pena de vocês, que não acreditam em milagres", disparou, para depois exaltar a Volta. "Foi uma corrida e tanto. Eu serei fã da Volta da França enquanto eu viver. E não há segredos, é um evento esportivo difícil e no qual se precisa trabalhar muito, mas muito mesmo, para vencer."

Mais sobre o assunto Lance Armstrong.

'Convite'

by Lya Luft

Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério


A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.

Perfeição

"... da nossa idade, o nosso futuro, séra nossa visao da perfeição"


Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado, que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade.

Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e seqüestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda afetação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã.

Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
(A lágrima é verdadeira)
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão.

Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso - com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção.

Venha, meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão.

Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera -
Nosso futuro recomeça:
Venha, que o que vem é perfeição

Desconectado

É assim de depois de certas coisas que nos acontecem, nos fazem mudar de atitude, de maneiras. Desacreditamos em muitas coisas, e começamos acreditar em coisa que nao nos fazem bem. Mas em enfim se quer saber o que eu tenho, de o seu coração a alguem e veja o que acontece. . .

É preciso um amor, uma pessoa, para mudar o seu destino, seus pensamentos, sua vontade de viver intensamente ou viver abaixo do normal para apenas esperar que tudo aconteça e voce finalmente se ve na idade de nao poder fazer muita coisa e entao espera a sua hora.

Agora entendo algumas coisas depressao, amor, morte, sentimento, vontade, vida, pensamentos. . .

Bom, quando der um passo por aqui, espero que melhor do que hoje, e agora.

. . .

Vida Comum - 'Véios'

Vida Comum – Véios

Sim depois de um pouco de tempo, volto a escrever essa magnitude que é a nossa vida comum, para quem esta perdido na vela espacial da inteligência russa, não esta sabendo que o “mensalão” atacou o Brasil de uma maneira incrível, isso porque todos juram que nunca ouviram falar, mas parece desenho animado, assim que juram saem correndo que voce só vê a poeira do rapaz. Ainda dizem que não tem dinheiro no pais, claro estão todos nos bolsos das pessoas lindas do parlamento, na qual nem um mero mortal tem acesso, aquele Jefferson senta no mesmo banco desde que lembro da época que eu assistia Mara - Maravilha no SBT acho (para fica mais facial, na época que a Hebe usava vestidos no programa que a fazia parecem lâmpadas florescentes gigantes). Mas enfim nessa conversa de mensalão e CPI dos correios o povo do parlamento esta meio perdido, olha só a noticia que saiu no dia 22/06/2005.

Folha de São Paulo

“Salário mínimo sobe a R$ 536 na Câmara, mas votação é refeita “

O governo levou um susto na votação da medida provisória do salário mínimo na Câmara dos Deputados. O valor proposto pelo Executivo de R$ 300 foi elevado a R$ 536,28 em votação confusa, dirigida pelo presidente da Casa, Severino Cavalcanti (PP-PE).

O novo valor estava no texto de uma das emendas apresentadas à MP e aprovada em votação simbólica e valeria até maio de 2006. A oposição havia tentado anteriormente elevar o salário a R$ 310, mas foi derrotada pela base governista por 230 votos a 171, com uma abstenção.

Os deputados da oposição reconheceram que o valor era inviável e que o governo não teria como bancar o novo salário. "Se o valor fosse de R$ 340 até dava", disse o líder do PFL na Câmara, Rodrigo Maia (RJ). "Não há recursos orçamentários para pagar esse mínimo", afirmou José Carlos Aleluia (PFL-BA).

Um acordo entre a base e a oposição permitiu que a Câmara desrespeitasse o regimento da Casa e refizesse a votação da emenda. Na nova disputa, o governo conseguiu manter por 316 votos a 18, com seis abstenções, o salário mínimo em R$ 300. A matéria continua em votação na Câmara e só depois de aprovada segue para o Senado.

Aposto que depois alguém levantou ajudou o Severino a não Ter um ataque cardiaco e falou:

- Opa, disculpa e, falha nossa.


Salario.

Eu fico imaginando a terceira idade na era digital, tadinhos as vezes eles podem se perder na velocidade das informações, e ma informção sobre o próximo capitulo da novela da ‘veia’ pode ser falta para um casamento de tantos anos. Já vi copos voarem na minha direção quando pensei em chegar perto da tv enquanto minha avó assistia uma das novelas das 9, agora imagine em questão de salarios:

- Oia ‘véia’, o salario aumentou pra 500 reaus, to tao feliz que vou repetir a sua comida hoje.
Nisso primeiro se segue um tapa no pé do ouvi do ‘véio’ só pela citação sobre a saborosa janta da ‘véia’.
- Nossa ‘veio’ serio? Ieu vou pode compra mais revista das novela porque comprando só uma as vezes as coisas vem tudo confundida né.
- Não veia, agora nois vai poder fica mais em casa, e colocar TV a cabiu.
Nisso se segue outro tapa no pé do ouvido do ‘veio’ só porque falou errado.
- Mas pra que se ne TV a cabo não tem a globo, não tem a novela das 9.
- Mas veia vai fica uma imagem linda, como voce era , mais jovem lembra!?
Bom nem preciso resaltar o tapa. . .
- I veia oia só li errado, o povo la de brasilia, erram as conta, hihihi, não é nem 300 reaus.
TAPA. (acho que esse foi por ele Ter feito uma pobre mulher da terceira idade, sonhar alto, com mais telesenas no bolso.)
- Intao porque voce não leu isso direito desdo começo?
- Por que voce não para de falar veia...
TAPA.
- Veio burro
- Veia irritada

Exatamente ai começa a novela das 9 e todo mundo esquece os problemas, quando termina o veio não entendeu para variar nada, mas sabe que a oportunidade é ótima para fazer a reconciliação, dando a veia o seu lenço que ele carrega no bolso da época de Santos Dummont.

TAPA
- Ai, por que isso veia.
- Porque felicidade de pobre dura poco.


By Julio Moraes

Vida Comum – Conversa de sala.

Vida Comum

Pois é depois de tanto tempo, alguém aparece escrevendo sobre a vida comum, chega de manuais, de contos de livros e até mesmo de novela das 9 onde os protagonistas vivem sofrendo porque nunca chegão a um acordo, e quando chegam voce é quem chora porque a novela esta para a acabar.
Mas enfim na vida comum as coisas são mais excitante do que se parece, as vezes no banheiro uma virada brusca e voce cai sentado no chão, depois ri, ai lembra da vida e chora, ai pronto lá se foi a primeira aventura da vida. Esta vendo é muito simples.
As aventuras nos procuram não nos a ela, veremos vários capítulos. . ., não acho melhor chamar de vários fatos fictícios imaginativos de uma pessoa no decorrer de sua própria vida intima e pessoal, bem melhor né. Entao veremos varios vários fatos fictícios imaginativos de uma pessoa no decorrer de sua própria vida intima e pessoal, de experiencia de outros claro. . .

Conversa de Sala.

Entre os vários fatos fictícios imaginativos de uma pessoa no decorrer de sua própria vida intima e pessoal, podemos ressaltar muita coisa, como por exemplo o famoso termo “fazer sala”. Quem inventou eu não tenho a mínima idéia mas eu sei que gostaria de conhece-lo, para mostrar todo o estrago que fez, quando lembro das minhas Tias Elinha e Rita, lutando em uma batalha destemperadamente para conseguir o ultimo salgadinho da mesa de centro, que na verdade foi a verdadeira vitima de todo o caso E tudo isso porque o tal do mediador, tambem conhecido como “o faz sala” estava buscando uns sucos para elas. O criador então dessa técnica inimaginável para o homem de “fazer sala” não pensava que tambem deveríamos alimenta-las, então a partir daí me levo no ponto de que algum homem da caverna inventou isso para justamente guardar as pessoas em sua nova estante que tinha acabado de esculpir nas pedras, e como ele não tinha ninguém para mostrar ele teve a brilhante idéia de convidar parentes, mais íntimos claro para não sujar o novo carpete de mamute que ele acabara que matar, para mostrar como sua caverna esta mais organizada, com um osso aqui, outras peles ali, isso sem falar que qualquer homem das cavernas que se preze tem um martelo de gerações anteriores que servia tanto para amaciar uma carne quando para bater na cabeça de uma “fêmea”, veja bem o termo ‘correcto’ colocado, na verdade acho que esse rapaz nunca conseguia correr porque convenhamos, o criador de “fazer sala” nunca deve Ter visto se quer a luz do dia nos tempos das cavernas. Fico pensando se ele criou os programas televisivos da tarde, ai poderíamos dizer que ele quem começou tudo, só falo isso porque precisamos culpas alguém pelas novelas mexicanas não é mesmo. . .

- Mas e voce o que me conta... há antes de contar, esta confortável? Quer um café, suco, chá, há eu descobri um licor de banana ótimo.!? Não então tá!


by JulioMoraes

Brilhante Incompreendido.

'...ao mestre com carinho.'


Cabelos desgrenhados, língua de fora, roupas comidas por traças. Albert Einstein é, sem sombra de dúvida, um retrato fiel do cientista "louco" e ao mesmo tempo adorável. Tão imerso em suas teorias e com uma visão tão mais além do que todo o resto do mundo, que é de se imaginar o quão fascinante e revelador não deve ter sido desvendar mistérios que acabariam por influenciar praticamente todos os campos da humanidade.

Nascido em Ulm, sul da Alemanha, em 14 de março de 1879, Albert Einstein foi o primogênito de um engenheiro judeu e sua esposa. Influenciado pela mãe, o pequeno Einstein tomaria gosto pela música, em especial pelo violino. Foi estudar na Suíça quando a família mudou-se para a Itália e, em 1896, foi admitido na Escola Politécnica Federal da Suíça, em Zurique.

Rebelde e galanteador, Einstein conheceu ali a estudante sérvia de física Mileva Maric. Os dois pareciam almas gêmeas e - apesar da negativa de sua mãe -casaram-se em 1903. De posse de cidadania suíça e já formado, Einstein não conseguia achar emprego como professor de física e matemática e por isso foi trabalhar em um escritório de patentes em Berna.

Por incrível que pareça, foi naquele escritório, durante suas horas vagas, que Einstein produziria a maior parte de seu trabalho, inclusive a teoria da relatividade, que quebraria conceitos newtonianos e seria uma das forças que virariam o século XX de ponta cabeça. A notoriedade viria logo em seguida e Einstein foi chamado para lecionar em universidades de Zurique, Praga e Berlim a partir de 1909. Cinco anos depois adotaria cidadania alemã e só a renunciaria em 1933, quando emigrou para os Estados Unidos, devido ás perseguições nazistas. A "física judia" de Einstein não era vista com bons olhos por Hitler (que mandou confiscar os bens do cientista), mas tampouco por Stalin (que a considerava "capitalista") ou pela Igreja Católica (para a qual era "ateísta").

Em 1919 seu casamento com Mileva Maric dissolveu-se. A união - que resultara em dois meninos - havia sido um tanto tempestuosa. Einstein acusava a esposa de um ciúme terrível, ao mesmo tempo em que dizia que era dona de uma feiúra incrível. Mileva por sua vez sentia-se abandonada e não conseguia dar ao "gênio" o espaço que ele precisava. Boatos contavam que Einstein não teria elaborado sua teoria da relatividade não fosse a ajuda de Mileva, mas a própria, mesmo depois da separação, jamais clamou seus direitos.

No mesmo ano, Einstein casou-se com uma prima já divorciada, Elsa Lowenthal. Diferentemente de Mileva, Elsa sabia dar a Einstein seu próprio território e não ousava reclamar das mulheres que o cercavam. Em 1921 foi agraciado com o Prêmio Nobel em Física.

Nos Estados Unidos, desde 1933, Einstein associou-se à Universidade de Princeton. Pacifista de carteirinha, criticava a exaltação da guerra em livros de história para crianças, se opunha ao serviço militar obrigatório e discordava da compra de armamentos pelos EUA como forma de evitar a guerra.

Seu pacifismo já havia sido criticado por colegas quando diante do avanço Nazista, Einstein sugeriu o uso de armas. Outro paradoxo em suas crenças contra a violência foi o fato de o cientista ter trabalhado no desenvolvimento da energia atômica. Ainda assim, enviou uma carta ao presidente Roosevelt no início de 1945, implorando que não usassem a bomba atômica contra o Japão. A carta foi encontrada fechada na mesa de Roosevelt, no dia de sua morte. Depois de Harry Truman ter dizimado os japoneses, Einstein teria dito: "Se eu soubesse que as pessoas fariam isto, eu teria virado um sapateiro".

Grande apoiador do movimento sionista - ao mesmo tempo em que se preocupava com a situação dos árabes na região - Einstein foi convidado por Ben Gurion para ser presidente do jovem estado de Israel. O cientista negou o posto, mas ajudou na fundação da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Albert Einstein morreu em 18 de abril de 1955 em conseqüência de um ataque cardíaco. Temendo a curiosidade que seu túmulo poderia despertar, pediu para que suas cinzas fossem espalhadas. Seu cérebro, no entanto, foi "surrupiado" para que nós, simples mortais, pudéssemos entender de onde vinha a simplicidade e o gênio de Einstein, que até hoje não foram equiparados.

Por: Gabriela Sampaio - MSN Homens Classicos.

Para saber mais:
Einstein Archives Online

JN: DF Hoje.

...enquanto isso nos aredores do Planalto...





Imagem.




Apenas para apreciar ouvindo JAZZ.

Diferente.

Aleatoriamente

Desocupado procura o que fazer nos horas mais impróprias
Deixa de ser um menino comece a se levantar
E dizer ao mundo que o homem vai se preparar
Aleatoriamente não sabe ainda como ira se comportar

As maiores sugestões lhe parece as mais erradas possíveis
Cheio de duvidas procurando um caminho, se sente perdido
- Que droga de mundo é esse onde eu tenho que fazer isso sozinho
Aleatoriamente não tem muitas opções, mas por que só aquelas , por que não outras

Vida difícil, vida fácil, vida mais ou menos
Como ele iria saber um resumo de tudo e não sabia sobre tudo
- Mas então para que serve isso mesmo?
Mas olha o menino perdido, querendo virar homem sozinho, calma rapaz.

- Mas então para que procurar tanto se a vida é assim?
- Para que tentar tudo se nada será meu fim?
- Porque fazer o que não quero, porque arriscar tudo?
- Estou perdido, aleatoriamente muitas opções, mas no fim qual é a certa?

Espere ai, pare e pense o porque chegou até aqui então.
Pense em como será depois da escolha e da outra decisão
Se esqueceu delas que iram passar por ti
Se esqueceu do sabor, do amor, da paixão, do perdão.

Menino - homem, se perdeu por um momento porque não tinha guia
Rapaz vê se cresce direito, fazendo tudo ao contrario do que lhe foi feito
Assim será diferente , sim, diferente aleatoriamente.
Igualmente aleatoriamente diferente.

by JM

Ensinamentos.

Um grande poeta me ensinou
Como ser generoso e abil com as palavras
Um grande poeta me mostrou
Como ser criativo e as vezes maldoso

Um grande poeta me mostrou
Como a vida pode ser linda
Um grande poeta me ensinou
Tudo o que pode se pode ser na vida

Um grande poema me ensinou
O começa de uma prosa, é um termino tragico de uma letra.
Um grande poema me olhou
Profundamente na alma de quem tanto quer aprender.

Um estranho me mostrou
Como tudo quer se ganhar tem que merecer
Um estranho me ajudou a ver
Tudo aqueli que eu poderia ganhar ou até perder.

Mas enfim onde esta esse poeta
Onde esta este poema
Onde esta este estranho
Como posso começar a vida?

Sem ter mais esses sonhos. . .

by JM

aprendiz de um poeta.

De Manha escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite Ardo



Vinicius de Moraes

Os versos mais tristes.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Escribir, por ejemplo: “La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos”.

El viento de la noche gira en el cielo y canta.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces, ella también me quiso.

En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.

Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Como no haber amado sus grandes ojos fijos.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido

Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.

Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.

Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.

Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.

Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.

Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta de haberla perdido.

Aunque ésta sea el último dolor que ella me causa,
y éstos los últimos versos que yo le escribo.

by Pablo Neruda

O Desespero da Piedade

Um dos melhores textos que ja li. . .

Elegia Desesperada

Meu Senhor, tende piedade dos que andam de bonde
E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...
Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
Quantos enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.


Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina


Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.


Tende imensa piedade dos músicos de cafés e de casas de chá
Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
Mas tende piedade também dos que buscam o silêncio
E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.


Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.


Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
Quem em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...


Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
Que se efeminam por profissão mas são humildes nas suas carícias
Mas tende maior piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!


Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
Quem lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.


Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
Mas tente mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia
Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.


Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.


E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tenha piedade das mulheres
Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!


Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta — que o homem não presta, não presta, meu Deus!


Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.


Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.


Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.


Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.


Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.


Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.


Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade.


Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.


Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e da sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.


Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.


Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados — sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!

Vinicius de Moraes