"Noites Brancas"


Fiodor Mikhailovitch Dostoievski (1821 - 1881) O segundo filho de um médico, (que fugiu de casa para não entrar num seminário) Dostoievski nasceu em Moscou, a 11 de novembro de 1821. Estudou em internato e, depois que sua mãe morreu (1837), seu irmão o levou a São Petersburgo, para estudar engenharia numa escola militar. Viajando pela primeira vez pelo país, o jovem conheceu a realidade dos pobres. Na escola de engenharia foi infeliz, exceto por suas leituras: Hoffman, Schiller, Shakespeare, Balzac e muitos outros autores, russos e estrangeiros. Seu pai foi morto em 1839 por camponeses que trabalhavam para ele (tratava-os com brutalidade). O escritor nunca se referiu a esse fato, mas é certo que a tragédia não o tornou indisposto à classe camponesa da Rússia, pelo contrário. Sua primeira produção literária, aos 23 anos, foi uma tradução de Balzac (´Eugénie Grandet´). No ano seguinte escreveu seu primeiro romance (´Os pobres´), que foi bem recebido. Com os escritores e críticos que conheceu tomou contato com os ideais revolucionários. Juntou-se aos socialistas. Vivia em dificuldades nesses anos, tendo renunciado à herança paterna. Nessa época também sua epilepsia começou a se manifestar. Foi preso com um grupo de amigos socialistas em 1849. No julgamento que se seguiu, por alguma razão Dostoievski foi considerado o líder do grupo e condenado à morte. A sentença foi mudada por intervenção do imperador em 4 anos de trabalhos forçados na Sibéria seguidos de alistamento compulsório no exército. (Essas experiências foram registradas em ´Memórias da casa dos mortos´, 1862.) Ficou no exército até 1858, quando sua saúde o obrigou a pedir dispensa. Casara-se no ano anterior com Marya Isaeva, mas foi um casamento infeliz. Por essa época retomou, mas timidamente, sua atividade literária. Já não era mais socialista. Voltou a São Petersburgo em 1859 e nos vinte anos seguintes escreveu seis longos romances, entre os quais suas obras-primas: ´Crime e castigo´ (1866), ´O idiota´ (1869) e ´Os irmãos Karamazov´ (1879). Seu segundo casamento, com Anna Snitkina (1867), ocorreu três anos depois da morte de Marya. Logo depois marido e mulher tiveram de fugir dos credores para a Alemanha. Viveram também na Suíça e na Itália. De volta à Rússia, Dostoievski estava transformado num conservador, capaz de ser o editor de um periódico reacionário. Morreu em São Petersburgo, a 9 de fevereiro de 1881.

Noites Brancas - Super indicação para leitura.

PRIMEIRA NOITE

Era uma noite maravilhosa, uma dessas noites que apenas são possíveis quando somos jovens, amigo leitor. O céu estava tão cheio de estrelas, tão luminoso, que quem erguesse os olhos para ele se veria forçado a perguntar a si mesmo: será possível que sob um céu assim possam viver homens irritados e caprichosos? A própria pergunta é pueril, muito pueril, mas oxalá o Senhor, amigo leitor, lha possa inspirar muitas vezes!...Meditando sobre senhores caprichosos e irritados, não pude impedir-me de recordar a minha própria conduta — irrepreensível, aliás — ao longo de todo esse dia.

Logo pela manhã, fora atormentado por um profundo e singular aborrecimento. Subitamente afigurou-se que estava só, abandonado por todos, que toda a gente se afastava de mim. Seria lógico, na verdade, que perguntasse a mim mesmo: mas quem é, afinal, «toda a gente»? Na realidade, embora viva há oito anos em São Petersburgo, quase não consegui estabelecer relações com outras pessoas. Mas que necessidade tenho eu de relações? Conheço já todo São Petersburgo e foi talvez por isso que me pareceu que toda a gente me abandonava, quando todo o São Petersburgo se ergueu e bruscamente partiu para o campo.

Fui tomado pelo receio de me encontrar só e durante três dias inteiros errei pela cidade mergulhado numa profunda melancolia, sem nada compreender do que se passava comigo.Percorri a Perspectiva, fui ao Jardim, errei através do cais, e não vi sequer um dos rostos que encontrava habitualmente nesses mesmos locais, sempre à mesma hora e ao longo de todo o ano. Eles, evidentemente, não me conhecem, mas eu os conheço. Conheço-os intimamente. Estudei as suas fisionomias — sinto-me feliz quando estão alegres e fico acabrunhado quando se velam de tristeza. Estabeleci laços quase de amizade com um velhinho que todos os dias encontro, sempre à mesma hora, na Fontanka. Tem uma expressão muito grave e pensativa e sussurra permanentemente, falando consigo mesmo, agitando a mão esquerda enquanto com a direita segura uma longa e nodosa bengala com um castão de ouro. Ele próprio me reconhece, dedicando-me um cordial interesse. Se, por qualquer eventualidade, eu não aparecesse à hora do costume nesse tal sitio habitual na Fontanka, tenho a certeza de que teria um acesso de melancolia. Assim, sentimos, por vezes, a tentação de nos cumprimentarmos, principalmente, quando estamos ambos de bom humor.

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