Em tratamento. Primeira sessão.

Uma pequena obra fictícia por Julio Moraes.

Doutora, eu sei que sou um bom psiquiatra, mas preciso desabafar também, somos humanos não é mesmo?

Por onde começo? Hum.

Trato de uma paciente com caso diagnosticado de esquizofrenia, ela ignora tudo o que conhece e que vive por se sentir única no mundo. Tem pesadelos com o fim da própria vida. Mas sempre acredita precisar estar viva para algo que apenas ela entende.

Não acredito que seja suicida, mas uma pessoa que nunca teve atenção. Ela vem de uma família nobre de pais ausentes. Nunca se socializou com amigos de escola ou parente. Diz ser ainda ignorante a fatores íntimos de casais. Acho que ela tem algo que quer resgatar, e por isto procurou-me.

Não sei como posso ajudá-la. Em nossas sessões ela sempre destaca que a humanidade não deu certo. Curiosa teoria não é?

Ela acredita que tivemos nossa chance como humanidade, mas apenas não deu certo. Vê a rua de pessoas que não pregam o que diz e se sente fora da sociedade em si. Segundo a teoria dela vivemos em comum acordo da ignorância ativa humanitária, algo como, somos erros de nós mesmos. Entendo o ponto dela e sinto-me amedrontado quando começo a pensar que esses tipos de teorias podem ter algum tipo de razão.

Minha paciente cita muitas vezes pessoas que grandes pensadores, mas nada que não tenhamos visto antes. A primeira citação dela foi: “O primeiro dever da inteligência é desconfiar dela mesma” de Einstein. Presumi que fosse algum acontecimento de seu passado, pedi para continuar e desenvolver a citação.

Ela me conta uma historia que em seu passado vivia da mesma maneira, e que coisas acontecem sem o nosso poder ou saber. Acredita que “sua vez” logo chegará, mas não identifico como morte, mas sim algo psicológico. Tentei procurar algo em sua mente que me levasse a entender melhor esta citação, mas nada encontrei. Talvez esteja perdendo o meu ‘felling’.

Como ela é? É uma garota nova, fisicamente bonita, não trabalha e também não estuda. Viva a sombra de seus pensamentos e é sustentada pelos pais. Na qual os mesmos a indicaram me visitar.

Mas como dizia agora a pouco. A teoria é de que tivemos o grande dilúvio e uma segunda tentativa, não deu certo. Acredita que a bíblia ensina coisas maravilhosas e mesmo assim diz que a humanidade interpreta de um jeito errôneo ou então até presunçoso. Desde então tento reparar em algo mais religioso nela, talvez pudesse me ajudar em muitos fatores, mas diz ter uma crença própria e que sua existência é apenas uma imaginação da próxima humanidade que finalmente terá feito tudo o que deveriam.

Após outras sessões ela me traz uma nova perspectiva de sua analise a humanidade, diz que somos frutos de pessoas inteligentes, poucas que nos testam para verificar se valemos a pena ou não. Uma pergunta dela foi: “Como sabe que tudo o que existe é apenas um fato presencial de sua imaginação. Quem prova que aquela pessoa existe quando você não a vê?”

Para esta garota tudo é subjetivo, tudo é enigmático, mas simples ao mesmo tempo. Traz consigo uma bagagem de historias obscura e necessidades de extravasar sua existência a algo ou alguém. Acredito que precise dizer algo aos pais ou outra pessoa que admira.

Não a vejo como ameaça, não no momento. Nem mesmo a ela. Esta apenas confusa.

Sim, ela já citou ouvir vozes de pessoas que não existem mais em presença em sua vida, e também cita receber visitas pelas pessoas que cita as frases todas as semanas. Diz estar sendo preparada para o tal acontecimento. Se sente sozinha.

Preocupo-me, mas parece que as sessões estão ajudando, ela diz tentar ficar mais presente em casa, não participa em nada com a família, disse ficar a alguns dias ao pé da escada quando estão na sala. Mas logo volta ao quarto e começa a escrever cartas a ninguém.

Sim, ela escreve algumas cartas, mas por enquanto não as mostra para mim. Se existe uma terceira pessoa? Acredito que não ela nunca cita alguém como pessoa, mas sempre algo, relativo a acontecimento. Pressentimentos. Mas irei abordá-la melhor neste assunto.

Nosso tempo acabou. Engraçado como é ouvir isto estando do outro lado. Próximo sábado no mesmo horário? Ok. Obrigado e até logo Doutora.

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