A questão da Inclusão Social.

Num filme americano, ambientado nas primeiras décadas logo após a Independência dos Estados Unidos, ou seja, no finalzinho do século 18, um aventureiro britânico e um fazendeiro americano, papel este vivido pelo ator Gene Hackman, discutem sobre qual seria a melhor forma de governar nossos irmãos do Norte. Obviamente, o primeiro defende a monarquia, enquanto que o segundo prefere o presidencialismo.

Em determinado momento, Hackman diz, convicto, e de forma enfática, a seguinte frase: “Sou fazendeiro, para que meu filho seja presidente dos Estados Unidos, e meu neto, poeta”. E, com isso, encerra-se a conversa entre ambos.

A personagem, vivida por Gene Hackman, ao dizer tal frase, estava explicitando, com muita clareza, o sonho da elite americana, de origem anglo-saxônica, branca e protestante, concentrada, principalmente nos territórios da Costa Leste dos Estados Unidos.

Esse sonho da elite americana continua até hoje, com o reforço eventual de milhões de imigrantes, além, é claro, da igualdade dos direitos civis entre negros, descendentes de africanos, e brancos, a maioria deles de origem européia, e do acesso de todos à escola pública, principal elemento propulsor da inclusão social.

No Brasil, contudo, País de industrialização recente, a inclusão social só começa, de verdade, na década de 40 do século 20, quando Getúlio Vargas adota a legislação trabalhista e o salário mínimo, inspirados na fascista “Carta Del Lavoro”.

Nessa época, o Brasil tinha uma população estimada entre 40/50 milhões de habitantes. As conseqüências das leis trabalhistas, da fixação do salário mínimo e dos extraordinários processos de urbanização e industrialização, que se seguiram, criaram o esboço de uma elite, dividida entre agricultores exportadores e empreendedores industriais.

Ao longo das décadas seguintes, criou-se um mercado interno, mantido por contingente, formado por 20 milhões de trabalhadores urbanos, chamados de “marmiteiros”, em meados da década de 50, pelo então candidato da UDN à Presidência da República, marechal Eduardo Gomes; além de uns dez milhões de camponeses, vivendo em fazendas do interior.

Depois disso, os filhos dos “marmiteiros” viraram operários de carteira assinada; parte deles especializou-se; e os netos, aos poucos, transformaram-se em profissionais liberais (médicos, dentistas, advogados, professores e engenheiros). Tal modelo de inclusão social à brasileira, todavia, esgotou-se no início da década de 80.

Hoje, com uma população estimada em 185 milhões de pessoas, cerca de 50 milhões sobrevivem oscilando entre a pobreza e a miséria. O desafio do presente e do futuro próximo é incluir socialmente esse contingente, fazendo com que eles consumam, trabalhem em empregos estáveis, contribuam para a seguridade social e recebam educação de boa qualidade.

Pode-se dizer, a título de conclusão, que o sonho dos brasileiros, hoje socialmente excluídos, é sobreviver, de alguma forma, para que seus filhos tenham empregos estáveis, e seus netos se tornem profissionais liberais. É um novo ciclo.

Esse também deve ser o sonho de nossas, então chamadas, elites e da classe média. Transformar isso em realidade será bom para todos, indistintamente. O desafio é enorme, por isso exige a soma de esforços do governo e de toda a sociedade.

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