Imperador e Galileu

Cristianismo e paganismo, intolerância religiosa e preconceito, as relações sinuosas da Igreja com o Estado. Essas são algumas das polêmicas debatidas em “Imperador e Galileu”, peça do norueguês Henrik Ibsen (1828-1906), que ganha montagem inédita no Brasil, pelas mãos do diretor Sérgio Ferrara. A peça estréia em 18/07/2008, no Sesc Santana, zona norte de São Paulo, e tem o ator Caco Ciocler como protagonista, no papel do imperador Juliano.

O texto, escrito em 1873, é considerado pelo próprio Ibsen a sua maior obra. “Imperador e Galileu” é a que teve o mais longo processo criativo da carreira do dramaturgo, com a duração de nove anos, entre 1864 e 1873. O texto trata da vida do imperador Juliano (século IV d.C), que se tornou figura polêmica ao tentar destituir a igreja católica como religião oficial do império romano e resgatar os cultos pagãos.

A peça, traduzida por Fernando Paz e adaptada por Sérgio Ferrara , cobre um período de 12 anos, de 351 a 363 A.D., numa época de conflito entre o Cristianismo e o Helenismo. Na abertura da peça Juliano tem 19 anos e com o seu meio-irmão Galo, herdeiro do trono, vive sob o período de terror instaurado pelo imperador cristão Constâncio, que tinha mandado assassinar toda a família de ambos. Juliano fora educado como cristão, mas é perseguido pela dúvida. Sob a influência do seu tutor, o filósofo Libânio, vai para Atenas aprender sobre a religião dos pagãos. Porém, também não consegue alívio na adoração dos antigos deuses, ansiando por uma revelação que lhe mostre que caminho seguir. Máximo, o místico de Efeso, revela-lhe a visão do &l dquo;terceiro reino”, um reino que se baseará na ética cristã, na sabedoria pagã e na alegria pela vida. Juliano torna-se imperador e declara a liberdade religiosa a todos os cidadãos.

Quando assumiu o império romano, a primeira coisa que Juliano fez foi tentar extinguir a igreja católica como igreja oficial do Estado. O escândalo foi enorme. Dentre as polêmicas leis que criou, ele decretou que a igreja católica deveria restituir todos os templos pagãos, estava proibida de receber doações em dinheiro e não poderia mais usar o Estado ou sua infra-estrutura, como o transporte, para poder peregrinar. Teria que pagar por isso, bem como conviver com todos os ritos pagãos que o imperador pretendia resgatar. Juliano foi considerado um Anticristo e assassinado aos 32 anos, no deserto, por um criado e amigo cristão. A peça, que se passa no século IV, discute, dentre outros tópicos, a intolerância religiosa presente ainda nos dias de hoje.

Em setembro de 2005, o diretor Sérgio Ferrara foi convidado para dirigir uma leitura dramática da peça “O Inimigo do Povo”, no Sesc Consolação, evento que deu início às comemorações do centenário de Henrik Ibsen, celebrado em 2006. A peça estreou em outubro de 2006, no Sesc Ipiranga e depois em 2007, fez uma longa temporada no Teatro Ruth Escobar, Tuca e na Viagem Teatral do Sesi, em São Paulo.

“Nesse logo contato que tive com a obra de Ibsen, tomei conhecimento dessa peça inédita no Brasil, nunca antes traduzida e encenada. É muito importante continuar essa pesquisa, sobre a obra desse dramaturgo, que revolucionou a estrutura da dramaturgia do nosso século, tido como o pai do realismo e considerado universalmente o Shakespeare da contemporaneidade. É um projeto grande, que requer uma pesquisa árdua e o envolvimento de um elenco e uma equipe técnica afinados para a realização do espetáculo. Além de trazermos para o público uma obra inédita de Ibsen, também estaremos debatendo através desse texto o tema da intolerância religiosa, que, quando misturada com assuntos políticos, pode levar as nações a guerras intermináveis em nome de Deus”, aponta Sérgio Ferrara.

Sobre Henrik Ibsen:

Apelidado de pai do teatro moderno, criador do chamado "teatro de idéias", a obra do norueguês Henrik Ibsen (1828-1906) se caracteriza pelo estudo psicológico dos personagens, pela crítica à burguesia e ao capitalismo e pelo encontro do indivíduo com a sociedade. Foi um dos revolucionários do teatro moderno ao colocar em cena não um mundo idealizado, povoado de heróis e heroínas sobre-humanas, mas, sobretudo, as angústias e sentimentos comuns à maioria das pessoas da classe média de seu tempo. Sua obra é dividida em 4 períodos e 25 peças. Em 1863, fez sucesso com "A Matéria de que se Fazem Reis", ambientada na Noruega medieval e apresentada na Itália, onde escreveu outras três peças, entre elas: "Peer Gynt" (1865), uma crítica ao homem moderno atrav&ea cute;s da trajetória de um aventureiro que abandona seus princípios morais em nome da fama; "Casa de Bonecas" (1879), sobre uma mulher que abandona o marido e os filhos para ser independente. Também fazem parte de sua obra "A Comédia do Amor" (1862) e "Os Pilares da Comunidade" (1877).

Sobre Sérgio Ferrara:

Depois que deixou o CPT (Centro de Pesquisa Teatral) supervisionado pelo diretor Antunes Filho, Sérgio Ferrara dirigiu espetáculos como Antígona de Sófocles na jornada Sesc de teatro com o ator Paulo Autran, “Tarsila”, de Maria Adelaide Amaral, “Barrela” e “Abajur Lilás”, de Plínio Marcos, “Mãe Coragem e seus filhos”, de Brecht com a atriz Maria Alice Vergueiro. Recebeu o Prêmio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) de melhor diretor pelo espetáculo “Pobre Super-Homem”, de Brad Fraser. Com o ator Raul Cortez realizou a peça “Fica Frio” do dramaturgo Mario Bortoloto e recentemente no seu espetáculo “O Mercador de Veneza”, de William Shakespeare, o ator Luis Damasceno recebeu o Prêmio Shell de melhor ator. Em 2005, em parceria com o escritor Ignácio de Loyola Brandão e a artista plástica Maria Bonomi realizou o espetáculo “A Última Viagem de Borges”, indicado ao Prêmio Shell de melhor cenografia. Seu trabalho mais recente foi “O Inimigo do Povo” (2007), de Henrik Ibsen, em comemoração ao centenário de morte do dramaturgo norueguês, e que contou com o apoio da Embaixada Real da Noruega no Brasil.

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