The crisis ou A crise

A Bolsa de Valores de Nova York não fica na Wall Street, mas na Broad Street. E a economia dos EUA também não está em Wall Street, mas no que os norte-americanos chamam de "Main Street", ou Rua Principal. É na rua que estão as lojas, as fábricas e os consumidores.

Nesta semana ficou claro que a crise financeira já chegou à "Main Street", e o principal meio de contágio foi o mercado de crédito. Com bancos quebrando ou sendo fundidos em efeito dominó, o mercado de crédito nos EUA se transformou em um "Vale da Morte", seco em dinheiro para fazer a economia rodar.

As maiores montadoras de veículos anunciaram perdas enormes de faturamento em setembro. Uma das principais causas foi o enxugamento do mercado "subprime" (de segunda linha) de crédito para veículos. Até o ano passado, quase 70% das pessoas que não tinham um bom histórico de crédito nos EUA conseguiam, mesmo assim, financiar a compra de um veículo. Esse total caiu para 22% agora, derrubando as vendas de Ford, GM e Chrysler.

Entre os consumidores, nova pesquisa do Fed (banco central dos EUA) mostrou que dobrou entre abril e agora o número de bancos (de 30% do total para 65%) que passou a adotar políticas mais restritivas para a concessão de financiamentos, tanto para cartões de crédito quanto nas redes de varejo.

Além de vender menos, as empresas estão estranguladas com a falta de crédito para girar suas atividades no dia-a-dia, como pagar salários e comprar matérias-primas para produzir. Nas duas últimas semanas, as maiores companhias americanas conseguiram levantar juntas só US$ 6 bilhões colocando títulos no mercado. Em tempos normais, elas conseguiriam esse valor em um único dia.

O FMI (Fundo Monetário Internacional) acaba de divulgar um relatório traçando um horizonte muito ruim para a economia norte-americana. Uma recessão forte e de longa duração não está mais descartada.

Ao analisar 113 crises em vários países nos últimos 30 anos, o Fundo considera que a atual, nos EUA, é a que mais se assemelha a uma "tempestade perfeita". Isso porque ela acerta em cheio o consumidor, que é quem faz, em última instância, a economia andar.

Três quartos do PIB norte-americano são gerados pelo consumo, que é movido a crédito _e que agora está em falta. Além disso, os americanos nunca estiveram tão endividados: devem US$ 14,5 trilhões e estão hoje bem mais pobres do que há um ano, quando suas ações na Bolsa e o preço de suas casas não tinham começado a despencar.

O quadro atual torna bizarra a discussão sobre se o Estado deve ou não ajudar os bancos em perigo. Não fazê-lo agora seria a pior das alternativas. US$ 850 bilhões (o total do pacote aprovado no Senado dos EUA) eqüivalem a 6% do PIB norte-americano (de US$ 14 trilhões). O valor será financiado por um endividamento maior, algo que tem impacto apenas indireto no dia-a-dia das pessoas e que pode ser equacionado a longuíssimo prazo.

Já uma recessão forte e prolongada terá consequências rápidas e diretas, sobre emprego e renda.

Se isso de fato acontecer, um custo de 6% do PIB pagos a longo prazo teria sido uma pechincha.

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