Mitos, Contos e Paulista

Este post faz parte da blogagem coletiva promovida pelo Ronaldo Santos do Vida Blog.


Pensei bastante sobre o que poderia falar. Hoje em dia poucas pessoas lembram de nossos tradicionais contos folclóricos, e graças a programas televisivos como Mythbusters pouco ainda o pessoal tem a duvidar. Mas o curioso é como os anos passam e muitos mistérios aparecem e outros somem. Um deles é a famosa estória da av. Paulista. Irá comemorar seu primeiro centenário e ainda conta com milhões de contos, mitos, acontecimentos e promessas para a cidade e o país.

Nada mais regional, do que um mito do passado e presente para todos os paulistanos. Está é a Av. Paulista.

Inaugurada em 8 de dezembro de 1891, foi concebida pelo engenheiro Joaquim Eugênio de Lima para ser um boulevard, como os de Paris, que abrigasse a fina flor da elite paulistana.

Já nasceu sob o signo do dinheiro e, embora tenha mudado completamente sua face nesses 116 anos de existência, continua sendo o maior PIB por metro quadrado do país, já que as milionárias residências foram substituídas por milionários prédios de grandes bancos e corporações.

O engraçado é que Joaquim Eugênio de Lima queria unir a Consolação ao Paraíso e tinha um pequeno problema no meio do caminho: o vale onde hoje está a Av. 9 de julho. Hoje talvez, para conseguir uma reta entre os dois bairros, ele construísse um viaduto. Mas, na última década do século XIX, a melhor solução era aterrar. Assim, ele “tapou” a depressão que havia no meio do caminho e acabou obrigando o prefeito Prestes Maia, quase meio século depois, a abrir um túnel debaixo do aterro para construir a Avenida 9 de Julho.

O Masp e o Parque do Trianon repousam sobre o aterro do Joaquim.

O criador da Avenida Paulista, além de grande empreendedor, era também barão. Nascera no Uruguai mas se naturalizara brasileiro e escolheu investir em São Paulo parte da sua fortuna, porque acreditava que essa seria a cidade do futuro e por isso criou outros empreendimentos além da Paulista.

Antes de Joaquim Eugênio de Lima, a região era chamada de alto do Caaguaçu e abrigava algumas chácaras. O nosso empreendedor comprou todas, aterrou o vale e construiu a avenida, tendo o cuidado de reservar uma área para criar um parque onde se preservaria toda a vegetação nativa. E assim nasceu o hoje Parque Siqueira Campos, que todo mundo chama de Trianon. O projeto paisagístico foi de Paul Villon.

Imagine, Eugênio de Lima era tão moderno que já pensava em preservação da natureza em 1890!

A Avenida Paulista foi oficialmente inaugurada no dia 8 de dezembro de 1891.

Uma lei municipal proibiu o trânsito das boiadas, que iam para o matadouro da Vila Clementino (onde hoje funciona a Cinemateca, ali no largo Raul Cardoso) e regulamentou os loteamentos.

Logo os ricos paulistanos começaram a construir enormes mansões de gosto duvidoso (que a arquitetura chamou de “ecléticas”, numa tentativa de disfarçar a salada de estilos) e a larga avenida, calçada de pedras brancas, foi se enfeitando.



A primeira casa construída na avenida pertencia a Von Bullow, dono da cervejaria Antártica. Projetada pelo arquiteto Augusto Fried, ficava no terreno onde hoje está o edifício Paulicéia, um dos poucos prédios residenciais que restam na Paulista e que é, curiosamente, o edifício mais filmado do país, uma vez que todas as televisões, há décadas, vêm fazer enquetes de rua bem em frente ao Paulicéia. Ao lado dele está o prédio da Fundação Casper Líbero, que abriga as rádio e TV Gazeta, o cursinho Objetivo e ostenta em seu topo a famosa antena da Rede Globo de TV.

Em 1896 foi construída a residência do Conde Alexandre Siciliano, projetada pelo arquiteto Ramos de Azevedo, que mais tarde seria responsável pela construção da Casa das Rosas, uma das poucas que está de pé até hoje e virou centro cultural. É deste ano também a casa do Conde Francisco Matarazzo, projetada pelos italianos Giulio Saltini e Luigi Mancini. Quase cem anos depois da construção, Luiza Erundina, então prefeita de São Paulo, queria fazer com que a casa dos Matarazzo fosse tombada para virar o Museu do Trabalhador.

Como monumento arquitetônico a casa realmente não tinha lá grande valor e isto me soava mais ou menos como uma vingança socialista. A casa do grande patrão do começo do século XX seria tomada pelos trabalhadores. Por algum tempo, a polícia foi colocada para dentro dos muros da mansão e papai, que tinha escritório no prédio em frente, das janelas podia ver os policiais se divertindo, brincando de dar cavalos-de-pau com as velhas viaturas no enorme gramado em frente à casa. Não me lembro muito bem o que aconteceu, mas, alguns meses depois, a paulista foi desperta pelo estrondo de uma explosão: uma bomba fora colocada na casa e destruíra completamente a mansão. Isto foi no final dos anos 1980 e, até hoje, vinte anos depois, o terreno da casa continua sendo apenas um estacionamento, numa avenida cujo metro quadrado vale mais de 10 mil dólares.

Nos anos 1950 as mansões da Paulista começaram a ser derrubadas para dar lugar aos imponentes edifícios, comerciais e residenciais.

Trinta anos depois, quase nada restava das originais mansões. E começou a onda de tombamentos. Quer dizer: as famílias que ainda não tinham vendido os terrenos de suas casas para a construção de edifícios estavam correndo o sério risco de ver parte de sua herança ir pelo ralo. Ou seja, em vez de 10 mil dólares o metro quadrado, o terreno e a casa tombada passariam a valer quase nada. Seguindo o exemplo da casa dos Matarazzo, a velha casa que ocupava o terreno onde hoje está o moderníssimo prédio do City Bank, também foi pelos ares. Cheguei ao escritório de um amigo numa manhã e o mesmo me disse: - Julio, já viu aquela casa?

Casa? Que casa?

Pela janela eu vi então que a velha casa, onde uma senhora de cabelos brancos ainda pendurava lençóis nos varais do quintal, tinha sido cortada verticalmente pela metade e se podia ver os cômodos dos dois andares por dentro...

Curiosamente, hoje existem ainda alguns mistérios na Paulista.

No número 1919 está uma casa construída em 1905 por Joaquim Franco de Melo. A casa está em ruínas e ocupa um terreno muito grande, chegando a fazer esquina com a Alameda Ministro Rocha Azevedo. Existe também, quase vizinho ao Museu de Arte, o Masp, um pequeno prédio residencial, muito bonitinho, cheio de sacadas simpáticas, que está totalmente abandonado e literalmente caindo aos pedaços. Os poucos que visitaram essa casa disseram sentir algum tipo de energia estática e antiga, como se vivessem o passado em memórias de pessoas que passaram por ali.



Memória preservada apenas na Casa das Rosas (que foi construída em 1935), tombada em 1986 e mais tarde transformada em Centro Cultural; uma mansão também tombada onde funciona, curiosamente, uma lanchonete McDonald's; o colégio Rodrigues Alves, de 1919; o Instituto Pasteur e parte do prédio do Hospital Santa Catarina, construído em 1909.

Joaquim Eugênio de Lima morreu em 1902, muito provavelmente sem calcular a beleza e o motivo de orgulho que seria a avenida que idealizou e construiu e que hoje, muito apropriadamente, é o símbolo da cidade de São Paulo.

Dentre varias estórias das pequenas casas que ainda habita este lugar, poucas guardam seus segredos e contos. De uma maneira geral, acredito que muitos mitos e folclores os paulistanos ainda tem para contar.

Aguardo para ler sobre os novos e antigos contos folclóricos nos posts relacionados a esta blogagem coletiva.

Blogs que já participaram:

Lucas Oliveira, Camila, Talma, Talma-Decor, Oscar, Lys, Tetê, Vanessa, Lunna, PoudBrasil, Mateus, Entre Marés, Coisas Nossas, Yoko, Na casa da vovó, Fernanda, Zek, Andréa, Juca, Renata, Krek, Urbano, Moça do Sonho, Borboleta Azul, Criança Genial, Carnaval, Saia Justa, Marisa, Pensieri, Cidão, Cidão 2, Blogosfera Solidária, Jorge, Arte e Fotografia, Alma Poeta, Meiroca, Luz de Luma, Diário de Iza, Despindo Estórias, Karla Hack, Cristiano

abs, happy halloween

6 comentários:

  1. Interessante os dados sobre a Paulista, marco de São Paulo e que fascina que não é da cidade, como eu, que vou aí de vez em quando. Fiquei conhecendo um pouco mais dela.

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  2. Júlio, o simbolismo contido nas histórias fantásticas, formam o imaginário popular.
    As histórias retidas por pessoas e transmitidas oralmente através dos tempos, que misturam fatos reais e históricos com acontecimentos podem ser frutos da fantasia, mas as lendas procuraram dar explicações aos acontecimentos misteriosos ou sobrenaturais, enquanto os mitos são narrativas que possuem um forte componente simbólico. Folclore é o conjunto de mitos e lendas. Haverá sempre várias versões de uma única história, várias facetas, impressões pessoais e porque não, algo nas entrelinhas para cogitar um certo mistério. Alguém dorme nestas casas? Beijus

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  3. Oi Júlio.
    Post extenso mas informativo, fiquei conhecendo um pouco mais da principal avenida do país (em termos financeiros, já que em beleza Copacabana parece imbatível). Valeu a leitura.
    Aqui em POA também temos as nossas histórias inexplicáveis, como as aparições e milagres da Maria Degolada, uma noiva assassinada pelo noivo ciumento muitos anos atrás. Um dia ainda conto a história.
    Um abraço.

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  4. Este teu post esta uma delicia!
    www.meiroca.com

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  5. Nasci em SP mas não conhecia histórias da Av. Paulista, adorei saber. Qdo estiver por aí, vou querer ver com mais atenção o local.

    Aprendendo a Língua Japonesa

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  6. Meus parabéns jovem Júlio. Gostei imensamente da história da Av. Paulista, desconhecia quem foi o idealizador dela. Ela é e será sempre o cartão postal de São Paulo.
    Arnaldo Mocarzel

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