Problemas com horario

Cronica - - -

Era Winston Churchill, creio, quem dizia que a falta de pontualidade era um hábito vil. Churchill nunca conheceu o Brasil. No Brasil, não é a falta de pontualidade que é um hábito vil. É a própria pontualidade.

Aprendi a lição às minhas custas, depois de vexames sem fim: alguém me convidava para jantar lá em casa às 20h. Eu aparecia às 20h (com vinho, claro). O anfitrião recebia-me à porta e, com cara de quem presenciara uma catástrofe, disparava: "Ué, você veio tão cedo?" E depois acrescentava que:

a) O jantar só era às 20h (sic);
b) A casa não estava arrumada;
c) O jantar não estava pronto;
d) Ele não estava pronto;
e) Os convidados ainda não tinham chegado.

Mas chegavam. Pelas 22h, 23, alguns à meia-noite, perguntando se não tinham chegado cedo demais. Por essas alturas, eu já dormia a um canto. De cansaço e de vergonha. Desconfio que, algures pela casa, alguém conspirava contra mim:

- Você sabe que eu disse ao Julio para ele chegar às 20h e ele chegou mesmo às 20h?
- Sério?
- Sério, rapaz. Ele deve ter um problema, ou algo assim.

No Brasil, um jantar às 20h não é propriamente um jantar às 20h. "Oito da noite" é um indicação vaga que significa simplesmente "depois do sol se por". Uma espécie de celebração naturalista que, em certos casos, nem sequer necessita de uma hora. A marcação do jantar fica dependente de um "mais logo". E quando nós, europeus-abrasileirados obsessivos e pontuais, perguntamos "mas logo, quando?", alguém reitera: "às oito".

A solução, acreditem, é juntar duas horas à hora marcada. Um jantar às 20h é um jantar às 22. Um almoço ao meio-dia começa, em princípio, às 14h. Tomar uma cerveja no bar não é às 16h; é às 18h. Toda a gente sabia disso. Menos eu.

Por isso estranho a polêmica em torno do apresentador Luciano Huck, que viu o seu Rolex roubado em São Paulo. Huck não gostou e pede soluções radicais para combater a criminalidade na cidade.

Não concordo com algumas opiniões públicas que acusaram Huck de exibicionismo deslocado, como se a vítima fosse culpada por ser vítima. Eu próprio ouvi em São Paulo confissões de vítimas que desculpavam os assaltantes com as teses mais inacreditáveis.

"Eu estava bem vestido naquele dia". "A culpa é minha, eu tinha tomado banho". "Eu mereço, eu vivo em São Paulo."

A culpa de Huck está no simples uso de relógio, sobretudo num país onde o relógio é uma ofensa para a cultura local. É como usar uma camiseta de George Bush em Caracas. Ler a "Playboy" em Teerã. Ser heterossexual em São Francisco.

Ou ser um português nos trópicos. Esqueçam os bandidos tradicionais. Roubar um relógio no Brasil não é crime vulgar; é afirmação de identidade. O meu conselho a Luciano Huck é para ele procurar o seu Rolex na casa de meu anfitrião paulistano. Ele não gosta de pontualidade.

Um comentário:

  1. Julio, você escreveu tudo o que eu penso. Eu e o meu marido sempre fomos os primeiros a chegar em qualquer lugar e olha que nós nos esforçávamos ao máximo para chegar atrasados, ainda assim, os donos da casa estavam praticamente nus e com a casa bagunçada. Terrível. Pior ainda é entrar no banheiro e ver que além de bagunçado, não tinha papel suficiente e com a limpeza a desejar.

    Quanto ao Rolex do Luciano, eu também li um monte de teorias como se ele fosse o culpado. Ora, se ele tem dinheiro é porque pode.

    Beijocas

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