Sociedade, arte, pessoas ou o cão?

É uma bela história: Guillermo Vargas acordou certo dia deprimido com a fome no mundo. Guillermo é artista e um artista, por definição, não faz um sanduíche e alivia seu sofrimento como qualquer mortal. Um artista denuncia as injustiças do mundo, de preferência com gesto "impensável" e "radical".

Guillermo decidiu: resgatar um cão das ruas da Nicarágua, enfiá-lo numa galeria de arte, amarrá-lo com uma corda à parede e esperar para ver. Não é difícil imaginar o que aconteceu: sem comida e sem água, o bicho morreu. Intencionalmente? A diretora da galeria, Juanita Bermúdez, diz que não. Uma petição on-line contra Guillermo diz que sim. E Guillermo prefere não dizer nada. Prefere contra-atacar a hipocrisia das pessoas, que se comovem com um cão famélico numa galeria de arte mas ignoram os bichos, e sobretudo os humanos, que vagueiam pelas cidades.

Inagaki escreveu sobre o assunto a pouco mais de um ano atras, poderá ler e ver fotos aqui. O nome que foi utilizado na época foi - "O cachorro que morreu de fome em nome da "arte", mas será que foi em nome da arte?

A notícia saltou para as primeiras páginas e as discussões dividiram-se em dois campos. O primeiro discute a arte de Guillermo, decidindo se a tortura de um cão é um gesto "artístico" legítimo. O segundo defende o próprio cão, em nome dos "direitos dos animais" que Guillermo teria grosseiramente violado.

Eu respeito os eruditos que discutem a "arte" e os "direitos". Mas gostaria de regressar ao próprio artista, que não ficou apenas pela denúncia da hipocrisia humana perante a fome. Nas sábias palavras de Guillermo, as pessoas contemplaram o sofrimento do cão mas ninguém decidiu libertá-lo da galeria onde estava amarrado; e, mais ainda, ninguém chamou a polícia.

Nem mais. A palavra central de toda essa história é a palavra "polícia". Não vale a pena discutir a "arte" de Guillermo, porque a discussão pressupõe levar a sério a psicopatia de terceiros. E os "direitos dos animais" nunca me convenceram. Razão simples: os animais não têm direitos; a capacidade para articular e defender "direitos" é uma prerrogativa racional e humana, que brota da nossa humana dignidade.

Mas se os animais não têm direitos, isso não significa que os homens não têm deveres para com eles. A começar pelo dever de não os abandonar ou maltratar, o que seria uma degradação da nossa própria superioridade enquanto humanos. Dito de outra forma: se os homens não respeitam os seus deveres, eles também não merecem os seus direitos. Quando ignoramos o dever de não torturar ou não matar, perdemos também o direito de não sermos julgados ou presos.

O lugar de Guillermo Vargas e da galerista Juanita Bermúdez não é nos cadernos de cultura; é na delegacia, no tribunal e, quem sabe, na cadeia. Ou, para sermos mais específicos, na jaula que ambos merecem. Matar um cão por capricho "artístico" não é uma violação dos direitos do cão; é uma violação dos deveres do homem. É uma particular forma de desumanidade que coloca qualquer ser humano ao nível de uma besta.

A polêmica continua. pelo menos ao meu ver nada mudou em um ano e muito pouco se falou de algo que causou um certo impacto(?) na vida de todos nós. Acredito que se fosse uma criança o assunto teria morrido no mesmo periodo.

O que acha?

abs, até amanha

7 comentários:

  1. Se até aos dias de hoje o tema da arte tem sido sempre colocado num pano subjetivo e por vezes indecifrável, este gesto “artístico” põe em causa ou reformula todo o conceito de arte na sua essência.

    Mas o fato mais incrível e cruel dessa história é o fato de que: NAS PAREDES DA GALERIA, FORAM FEITAS INSCRIÇÕES COM RAÇÃO DE ANIMAIS, enquanto o pobre cão morria sem comida e sem água.

    Aff...Me desculpem os amantes da arte, mas eu gostaria de abrir uma exposição com esse " verme" como protagonista, mas dessa forma: sentado no chão frio, amarrado com correntes no pescoço, sem comida e sem água, enquanto que um farto buffet seria servido aos convidados NO MESMO SALÃO onde o verme seria exposto à visitação pública.

    Infelizmente existem pessoas que não deveriam ser denominadas como "seres humanos".
    Lamentável a atitude da galeria, lamentável a atitude dos espectadores...
    Sabe o que eu acho?
    Pessoas ruins sempre irão existir, mas o que não pode haver é o consentimento social para as barbáries praticadas.
    Hitler, Sadan, Bin Laden, a bomba atômica, o mapalm, o vietnan,o trabalho escravo,a prostituição infantil - São tão artistas quanto este aí!


    Abraços!

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  2. Como diria um amigo meu desbocado, arte é o caralho! Que maldade com o cão. Infelizmente o choque é apenas momentaneo para a maioria das pessoas. O ser humano se acostumou com a barbárie, mas não deveria...

    obs: tem meme 3x4 pra você lá no blog.

    Abraços, primo.

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  3. Desde q vi essa história, um anos atrás, fiquei impressionada com a burrice humana, que acha justificável determinadas coisas, em proveito da ciência, da religião ou da arte.
    O que fizeram com o cachorro foi um crime. Mas crime maior foi a vagabunda da mãe desse idióta não ter abortado ele enquanto era tempo.
    Mas voltando ao assunto, a "arte" do idiota é tão mal justificada... comparar o abandono humano com o de um animal.
    O ser humano, por mais abandonado que esteja, pode se mover e pegar uma fruta numa árvore ou roubar um alimento. Isso é o que o cachorro faria: fuçar o lixo atrás de comida.
    Mas o cachorro que ele utilizou estava nas mesmas condições que os seres humanos? Não. O cachorro estava amarrado. Preso. Impossibilitado de se alimentar pela ignorância humana.
    Acredito que quem visitou esta exibição nem imaginou que o FDP realmente não estava alimentando o animal.
    Eu realmente me sinto mal sempre que passeio pela net e alguém comenta essa história.
    A gente só pode esperar que isso não se repita.

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  4. Oi Júlio.
    Tadinho do auau. Pena que as criança que encontramos diariamente pedindo esmolas nas sinaleiras e fumando crack nas esquinas não despertem a mesma compaixão indignada. Acho que o artista quis provocar revolta, dar um sacolejão na hiprocisia, algo assim como: "isto acontece todos os dias aqui, ali e acolá e ninguém faz nada. Mexam-se seus porras, revoltem-se, protestem, tirem a bunda da cadeira e façam alguma coisa para acabar com a fome. Não apenas a dos animais, mas as das gentes, sobretudo. Gente é pra brilhar. Não pra morer de fome." Ao que parece, não deu certo.
    Um abraço.

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  5. Amigo,
    Mudei o Feeds do Compartilhando as letras. Gostaria que vc linkasse o novo endereço para receber as novas atualizações.Beijão e obrigada

    http://evelyns-place.com/compartilhandoasletras/

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  6. Amigo,
    Mudei o Feeds do Compartilhando as letras. Gostaria que vc linkasse o novo endereço para receber as novas atualizações.Beijão e obrigada

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  7. Querido, já li que essa história é toda falsa.
    Beijocas

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