A Crise? Vai bem, obrigado

Eu sei que os leitores do pub estão cansados da crise e não estão dispostos a ler mais uma análise sobre ela. O vocabulário é esotérico ("leverage", "toxic debt", "shorting") e o caos geral dos mercados tem reflexo direto na cabeça histérica dos comentadores.

Mas é importante, no meio do nevoeiro, começar por dizer que a crise financeira atual não é, apenas, uma crise financeira. É também uma crise política, que nasceu diretamente de uma concepção igualitária de sociedade que só podia terminar pessimamente.

Essa concepção nasceu no seio de várias administrações americanas que, nos últimos anos, movidas por noções aberrantes de "igualdade" social, entendiam ser possível operar o milagre da multiplicação do consumo.

Comprar casa, por exemplo, não era o resultado de anos de trabalho, poupança e investimento esse trio que, infelizmente, não está ao alcance de todos. Comprar casa era um direito e, mais, um dever. E como cumprir esse dever, que permitia, ainda por cima, fazer de cada investimento um novo negócio para um novo investimento?

Ninguém tem recursos ilimitados; mas houve, pelos vistos, empréstimos ilimitados: bancos que emprestavam a bancos que emprestavam a bancos que emprestavam a privados. Quando os empréstimos começaram a não ser pagos (inevitável); e quando o mercado imobiliário, depois da euforia, começou a derreter (idem), o mundo acordou para a evidência de que a única coisa que começava a faltar no sistema era, tão simplesmente, dinheiro.

Não foi a ganância de Wall Street que pariu a crise presente. Foi a ganância de toda a gente: governos, bancos, pessoas.

A euforia terminou em depressão e hoje, com a economia mundial à beira do abismo, talvez só um plano global de intervenção pública na banca possa evitar o descalabro. Um plano de emergência que, como todas as emergências, deve ser forte e temporário.

Mas seria um erro passar pelo momento atual sem aprender as suas lições. Quais? Dos governos, espera-se que aprendam como é perigoso e abusivo projetar construções ideológicas equitativas no funcionamento impessoal do mercado. Das pessoas, espera-se que relembrem o que têm e o que podem gastar, esse cálculo mínimo que é a base de qualquer economia doméstica. E, da banca, espera-se apenas que o velho equilíbrio entre prudência e risco possa regressar. De preferência, sem as pressões de cima ou as ilusões de baixo.

Uma receita básica? Precisamente. Mas, às vezes, é necessário começar pelo básico.

4 comentários:

  1. Amigo Júlio,
    Precisei mudar o link do Compartilhando as Letras.Gostaria que vc linkasse o novo endereço para continuar recebendo as atualizações e meu ranking continuar despencando no Blogblogs.Agradeço de coração.
    http://evelyns-place.com/compartilhandoasletras/

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  2. Têm uma interessante postagem que fala dessa crise também.Passe por lá, é sempre uma honra recebê-lo.

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  3. Oi Julio.
    Sem pressões de cima, sem ilusões de baixo e com uma vigilância firme (e regulamentada) sobre o "mercado", of couse. Greenspan e Hayek estavam errados. Marx está mais atual do que nunca.

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  4. Julio, quero participar da promoção da Madona, mas gostaria de não deixar registrado os meus dados aqui no seu post. Posso fornecer através de e-mail? Por favor me responda via e-mail para o endereço yvonnedimanche@gmail.com.
    Beijocas

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