El Cinéfilo

Tive uma juventude cinéfila e um dos responsáveis foi Danny Peary. Quem é Peary? Sim, um crítico menor, sem a grandeza de Pauline Kael (já morta) ou David Thomson (ainda vivo). Mas Peary tinha um paladar idiossincrático e o seu "Alternate Oscars", um livrinho encantador onde Peary revisitava a história do principal prémio cinematográfico, foi lido e relido com uma atenção escolástica.

No livro, Peary propunha-se "corrigir" as escolhas da Academia de Hollywood, um bom pretexto para viajar pela história do cinema americano durante seis décadas, de 1927 a 1991 (o exercício, inexplicavelmente, terminava em 1991). E a estratégia de Peary era simples: de ano em ano, o autor fixava-se nas três categorias principais do Oscar (melhor filme, melhor ator, melhor atriz) e depois explicava por que motivo a Academia falhou na esmagadora maioria das vezes.

Exemplos? Fácil: em 1930, "Cimarron" venceu o Oscar de melhor filme, Lionel Barrymore o Oscar de melhor ator (por "A Free Soul/ Uma Alma Livre") e Marie Dressler o Oscar de melhor atriz (por "Min and Bill"). Três escolhas, três erros, escrevia Peary. Em 1930, "City Lights/ Luzes da Cidade", de Chaplin, deveria ter ganho para melhor filme; Edward G. Robinson para melhor ator (em "Little Caesar/ Alma no Lodo"); e Marlene Dietrich para melhor atriz (em "Morocco"). E depois, com argumentação inteligente e cuidada, Peary justificava cada escolha.

Em 64 anos de premiação, por exemplo, Hollywood falhara 58 vezes no Oscar de melhor filme. Ou, inversamente, a Academia acertou apenas em 1929 ("All Quiet on the Western Front/ Sem Novidade no Front"), em 1943 ("Casablanca"), em 1961 ("West Side Story/ Amor, Sublime Amor"), em 1972 ("The Godfather/ O Poderoso Chefão"), em 1977 ("Annie Hall/ Noivo Neurótico, Noiva Nervosa") e em 1986 ("Platoon"). Nos atores, falhou 54 vezes; nas atrizes, 48. E houve casos --o ano de 1963, em que o vencedor foi "Tom Jones"-- em que nenhum filme deveria ter ganho o principal prémio.

Verdade que o livro de Peary era pessoalíssimo e megalómano. Mas, por causa dele, revisitei o cinema clássico de Hollywood, só para confirmar as escolhas do crítico. Sim, concordei com ele sobre a importância incomparável de Cary Grant (jamais premiado) ou Judy Garland (idem). E nunca a sintonia foi tão completa como no ano mágico de 1946: o Oscar de melhor filme foi para "The Best Years of Our Lives/ Os Melhores Anos de Nossa Vida", quando deveria ter premiado "It's a Wonderful Life/ A Felicidade Não se Compra" (diz Peary e digo eu). Sem falar do ator e da atriz desse ano: o Oscar de melhor ator foi para Frederic March (por "Os Melhores Anos de Nossa Vida") quando deveria ter premiado James Stewart (por "A Felicidade Não se Compra"). E Ingrid Bergman (em "Notorious/ Interlúdio", de Hitchcock) perdeu para Olivia de Havilland (em "To Each His Own/ Só Resta uma Lágrima"). Injusto, injusto.

Mas verdadeiramente injusto foi Danny Peary ter ficado em 1991 quando a Academia de Hollywood vai para suas indicações de 2009. Dezoito anos sem a sabedoria de Peary não são apenas uma lástima para seguidores como eu; são um convite para que alguém assalte o trono do Mestre e decrete os erros da Academia desde 1991.

abs.

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