40 anos depois

Roda Viva

Há 40 anos, no dia 4 de outubro de 1968, estreava no Teatro Leopoldina, em Porto Alegre (RS), a peça teatral “Roda Viva”, de autoria de Chico Buarque, sob direção de José Celso Martinez Corrêa. Depois de conturbadas temporadas no Rio de Janeiro e em São Paulo, quando a repressão do regime militar já mostrava total intolerância com as manifestações. Ações de grupos paramilitares intimidavam artistas e quaisquer demonstrações de questionamento. Estava prestes a ser decretado o mais pesado dos Atos Institucionais do Golpe Militar de 1964.

A decretação do AI-5, auge da chamada “linha dura” do regime militar, representou a castração da capacidade criativa, que surgira na década de 1950 com os CPCs (Centro Populares de Cultura), a Bossa Nova, o Cinema Novo, o Teatro de Arena e o Teatro Oficina, além das maiores obras da moderna literatura brasileira. Essas iniciativas explodiram na década de 1960, mas foram progressivamente sendo estranguladas pelas forças reacionárias até que foram definitivamente sufocadas em 1968. Tudo o que representava a identidade artística brasileira foi cruelmente interrompido. A montagem de “Roda Viva”, em Porto Alegre, foi a última que se viu.


No dia seguinte à estréia, a peça já não pode se apresentar. À noite, enquanto discutia o que fazer, o elenco se dividiu. A maior parte seguiu para a casa de um ator de Porto Alegre que fazia aniversário. Apenas três decidiram voltar ao hotel. Mesmo com os sinais da repressão por todos os lados, ninguém poderia imaginar o que os esperava. Um pelotão com mais de 40 pessoas armadas com cassetetes aguardava o elenco na entrada do Rishon Hotel. Dois dos três integrantes do espetáculo conseguiram escapar com algumas escoriações. Um, no entanto, foi cercado na rua e barbaramente espancado. O episódio, vivido por Romário José Borelli, organista da peça “Roda Viva”, de Chico Buarque, quando foi encenada em Porto Alegre, em 1968, retrata um período de intolerância e de repressão à liberdade. A época em que o exílio, a tortura e a morte eram as palavras mais pronunciadas entre os jovens deixou marcas profundas em milhares de brasileiros. Borelli é um deles.

“Um estado ditatorial eventualmente pode tornar-se democrático, mas quem sofreu com a violência nunca vai superar a agressão. Só quem foi vítima da selvageria que se instala durante uma ditadura sabe o que é carregar esse peso para o resto da vida. Por mais que a vida mude em alguns aspectos, essa mancha não sai mais da frente dos olhos e ninguém imagina que, além daqueles dias amargurados, estende-se um calvário particular de noites e noites de pesadelo, que se manifestam com a mesma intensidade quarenta anos depois. Ninguém imagina a recorrência aos remédios para dores no corpo, os pesadelos periódicos, a dependência de anos e anos de psicoterapia. A dor humana não é mensurável”, afirma Borelli, que hoje é historiador, dramaturgo e musicista.

Muitos artistas, afirma Romário, falam da censura como se ela fosse o centro de uma ditadura. “A censura é só um mecanismo de desfecho de um regime autoritário, a mordaça. Antes dela rasgou-se a Constituição, houve tomada de poder, expulsão dos diferentes, intolerância com a alteridade, devassa ideológica e pior, a ocultação de atos vergonhosos, como torturas, assassinatos — muitos executados clandestinamente — e outras barbaridades. Quando vem a censura tudo isso já está instalado. A censura é só a cortina que fecha essa tragédia, o pano de boca. Daí vem os lápis vermelhos nos textos, as receitas de bolo nos jornais e o corte de luz dos teatros. Mas pior do que isso é o constrangimento daqueles que sofreram a repressão, o luto das famílias, etc”.

Para Borelli, resgatar a memória dos fatos ocorridos naquela época significa mostrar às novas gerações o quão grave é ter os direitos básicos negados pelo Estado. “Quando se vive num estado que não lhe protege e se está sujeito às suas leis absurdas, você tem medo cada vez que tocam a campainha da sua casa. Vivemos isso quase vinte anos”, afirma. “A impossibilidade de manifestar vontade própria, mesmo que essa fosse para o bem comum, é uma condição que os jovens de hoje não experimentaram”, diz. Ele ainda vê com indignação as injustiças cometidas em nome do poder e ressalta sua preocupação com a defesa da soberania popular.

Aqueles anos vividos em defesa dos interesses populares, segundo Borelli, representaram a mais autêntica valorização dos direitos fundamentais do indivíduo. Um movimento que havia começado na década de 50 com os Centros Populares de Cultura (CPCs). “No caso do Teatro de Arena, a proposta socialista era clara, por mais utópica que parecesse. Então, é importante que se diga que grande parte daqueles que lutavam por democracia, lutavam também por socialismo, justiça social, transformações”, conta.

Ele entende que a falta de compromisso dos jovens de hoje com as questões coletivas é um prejuízo para o país e deve ser encarado como um desafio para pais e educadores. E, nesse contexto, o que se observa é que a sociedade paga um alto preço pela ausência de uma ideologia voltada para o bem comum. Ou pior, os jovens, sem uma inspiração ideal, se alienam completamente e viram uma espécie de zumbi, que caminham sem opinião com as massas. Quando não, partem para as drogas ou são facilmente cooptados por grupos de extrema-direita.

O dramaturgo defende a postura da sua juventude: “Durante a luta pela liberdade só se conseguia pensar que valia a pena lutar, conspirar, escrever, cantar a liberdade. Esse era o mote. Não havia espaço na cabeça para outra postura”, afirma. Ele explica que, quando se tem o compromisso com a real democracia, também não há espaço para dúvida. Depois, quando se consegue a democracia, com a multiplicidade de inserções permitida, há momentos de perplexidade. Mas esse era o objetivo afinal, propor reflexão, diversidade de opiniões para formar o consenso, e não deixar que isso seja tratado apenas como “tarefa de filósofos ou sociólogos”.

A constatação de Borelli é de que é saudável assumir a defesa do bem comum, pela própria natureza contestadora dos jovens, que muda conceitos e questiona a ordem mundial. Danos pessoais à parte, ele ressalta a importância de se reconhecer como um agente de resistência e com interferência positiva na mudança da realidade, o que não se percebe nas novas gerações. Toma como exemplo as questões elementares da atualidade como a sustentabilidade e a acessibilidade, mas que não se nota engajamento efetivo da juventude nessas temáticas de suma importância para a humanidade.

Ele questiona as formas modernas de ditadura. Segundo ele, há ações disfarçadas que limitam a cidadania nos dias atuais: “São formas de restrição da liberdade que ainda não estão catalogadas pela história ou pela sociologia”, diz. Ele descreve uma situação nova, muito mais poderosa, que alia os mecanismos de controle de uma sociedade cada vez mais complexa, com os interesses do capitalismo, a luta contra o crescimento da economia informal dentro da sociedade e a infiltração das gangues no mecanismo do Estado.

Por outro lado, o desenvolvimento da informática dá acesso a informações inusitadas e torna cada vez mais difícil manter o anonimato, colocando na mão do Estado as ferramentas de controle sobre o indivíduo. “Parece que George Orwell tinha razão, finalmente – não é à toa que os microcomputadores foram lançados em 1984”, lembra Borelli.

Para ele, agora, o Estado se sente no direito de controlar tudo pelo poder da polícia, desde a economia até a sexualidade das pessoas. “A sociedade, ainda nem se recuperou por completo da ditadura militar e já se entrega a essa nova forma de dependência da ação centralizadora do estado”, diz.

Questionado sobre o quanto foi compensador ter participado desse momento histórico, ele é categórico ao responder: “Muitos mudaram de posição, atenuaram seus anseios, cortaram as próprias asas, de qualquer forma, valeu a pena, sim. Não saberia ser diferente e faria tudo novamente. Faria mais”, conclui.

Agradeço ao Studio Graphico Comunicação pelas informações e ao Romário José Borelli.

abs,

3 comentários:

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  2. Olá... parabéns pelo seu Blog.... eu gostei do Pub's (aquele Mundo cheio de links que gira) Muito Bom mesmo parabéns!!!! Gostaria de saber como vc fez aquilo

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  3. Olá... parabéns pelo seu Blog.... eu gostei do Pub's (aquele Mundo cheio de links que gira) Muito Bom mesmo parabéns!!!! Gostaria de saber como vc fez aquilo, espero q vc goste do meu blog tbm... e tenho o meu site>>> www.beatrizdemoraes.xpg.com.br

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