Synecdoche, New York e Kaufman

Os roteiros de Charlie Kaufman provocam um curto-circuito no conceito de autor no cinema, normalmente mais ligado à figura do diretor. Suas obras apresentam elementos temáticos e visuais que as unem, tornando Kaufman uma espécie rara em seu meio, o roteirista-autor. Essa é a tese central de Cecilia Sayad no livro "O Jogo da Reinvenção - Charlie Kaufman e o Lugar do Autor no Cinema", ensaio curtinho e muito bem escrito, recém-lançado pela editora Alameda.

Em 62 páginas, Cecilia faz um necessário preâmbulo sobre o conceito de autor no cinema e depois identifica esses pontos comuns dos roteiros de Kaufman, presentes nos longas dirigidos por Spike Jonze ("Quero Ser John Malkovich", 99; "Adaptação", 02), Michel Gondry ("A Natureza Humana", 01; "Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças", 04) e George Clooney ("Confissões de uma Mente Perigosa", 02).

Na temática, são três os motes principais, as "obsessões" de Kaufman: o corpo como prisão ou fardo, o fascínio pela natureza (a essência perdida) e o desejo de ser aceito socialmente. Na estrutura, os filmes também se assemelham, com narrativas não-lineares, que quase sempre recorrem a flashbacks e amarram várias tramas e personagens.

E há também o que a autora define como o "diferencial" do roteirista: "A elaboração visual dos filmes também evoca o universo de Kaufman". As tramas do escritor pedem a ilustração de metáforas e alegorias de maneira literal, o que resulta em longas de caráter "algumas vezes fabulesco, outras absurdo (quando não fantástico)". Cecilia enumera bons exemplos de como essa opção pelo fantástico se espalha pela obra do roteirista, como na passagem abaixo:

"O desdobramento de Nicolas Cage como Charlie e Donald em 'Adaptação' encontra eco no de Jim Carey em 'Brilho Eterno' nos momentos em que ele fisicamente revisita o seu passado [...]. Esta duplicação da imagem de um só ator em um mesmo plano tem origem em 'Malkovich', quando o personagem que dá nome ao filme decide ingressar no portal que leva ao seu próprio corpo e mergulha num universo habitado por clones de si mesmo."

"O Jogo da Reinvenção" não é a primeira incursão de Cecilia Sayad pela cabeça de Charlie Kaufman. Em 2006, a professora do departamento de cinema da Universidade de Kent publicou na Inglaterra um ensaio sobre "Adaptação" na coletânea "From Camera Lens to Critical Lens" (Cambridge Scholars Press). Antes de Kent, ela deu aulas na universidade de Chicago e na NYU, onde realizou seu doutorado sobre a autoria nos cinemas de Jean-Luc Godard, Woody Allen e Eduardo Coutinho. Antes de se mudar para Nova York, trabalhou na Ilustrada, nos longínquos anos 90.

Falta a este novo livro uma análise da relação entre o Kaufman-roteirista e o Kaufman-diretor, faceta que se revelou neste ano com "Synecdoche, New York". Explica-se: até agora, o filme só estreou comercialmente nos EUA, no mês passado, depois que o ensaio já estava concluído. Para os fãs de Kaufman, a boa notícia é que "Synecdoche" está comprado no Brasil pela distribuidora Imagem. A má é que ainda não tem previsão de estréia. A seguir, o trailer do longa.



O filme conta a história de um diretor de teatro, Caden Cotard (Phillip Seymour Hoffman), que antes de morrer quer criar uma obra prima que deixará sua marca no mundo. Mas entre relações e a necessidade de criar uma obra-prima o personagem Contard não vê a realidade posta a sua frente. Ao longo dos anos Contard acaba alugando variados galpões por Nova York e contrata dezenas de atores para sua peça, que nunca virá a acontecer.


Abs,

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