Não esqueça

A juventude é metade da população.
Mas apenas um terço da vida


Boas festas,

Para minha eterna Luz

Dança comigo, por toda vida?



Eu dou a ela todo o meu amor
É tudo o que eu faço
E se você visse meu amor
Você a amaria também
E eu a amo

Ela me dá tudo
E com ternura
O beijo que meu amor traz
Ela traz pra mim
E eu a amo

Um amor como o nosso
Nunca poderia morrer
Contanto que eu tenha você perto de mim

Brilhante como as estrelas
Escuro é o céu
Eu sei que esse amor de mim
Nunca morrerá
E eu a amo

Te amo por toda vida

Feliz Natal.

Nosso show na realidade

A epidemia do século 21 já tem nome: "Síndrome de Truman". O nome pertence a filme de 1998, "The Truman Show/ O Show de Truman", com Jim Carrey no papel principal. Não lembram? Eu lembro: o personagem de Carrey era um simpático vendedor de seguros que, gradualmente, descobre a fraude existencial que o envolve. A sua vida, desde o berço, é apenas um gigantesco "reality show", filmado por câmeras ocultas 24 horas por dia. E todas as pessoas que o rodeiam --mulher, família, vizinhos, amigos e inimigos-- são meros actores contratados para representarem seus papéis.

O filme termina em registro heróico, com Carrey a libertar-se do pesadelo, ou seja, abandonando o estúdio onde viveu encerrado (e filmado) durante décadas.

Acontece que o pesadelo já emigrou para a realidade. Leio agora na imprensa do dia que cresce assustadoramente o número de pessoas que acredita genuinamente que a vida não lhes pertence. Pertence a um produtor televisivo que montou uma gigantesca ilusão em volta. Como no filme de Jim Carrey, esta gente-se sente-se vigiada por câmeras imaginárias e olha para as respectivas vidas como se apenas estivessem a cumprir um roteiro pré-escrito.

Não confiam na família. Não confiam nos amigos. Não confiam em ninguém. E há mesmo casos de tentativas de suicídio por criaturas transtornadas que não aguentam "continuar" no "show". Uma das histórias mais pungentes pertence a um anónimo norte-americano que, cansado de "representar", entrou num edifício do governo federal e implorou, de joelhos, para que desligassem as câmeras e terminassem com o programa. Ele queria, simplesmente, sair.

E os médicos? Os médicos têm uma palavra importante, a começar pelos psiquiatras. Mas, como os próprios admitem, o caso não é simples de resolver. Desde logo porque eles próprios são vistos pelos pacientes como parte do engodo. Os médicos não são médicos. São atores, vestidos de bata branca, que tentam convencer o doente de que ele está doente.

Não pretendo levantar polémicas inúteis. Mas, confrontado com a epidemia, eu próprio duvido da doença dos doentes. E pergunto, inteiramente a sério, se eles não serão as únicas pessoas lúcidas no meio da loucura reinante.

Um pouco de história talvez ajude: durante séculos, a posição que ocupávamos em sociedade era determinada pelo berço em que nascíamos. Nascer no berço errado, em circunstâncias de pobreza material e cultural, era meio caminho andado para uma vida igualmente pobre e lúgubre. Existem todas as exceções do mundo, claro. Mas as exceções apenas servem para comprovar a tese: a nossa posição em sociedade era uma questão de sorte, não de mérito.

Com o fim da Primeira Guerra Mundial, e o enterro do Velho Mundo que o conflito arrastou consigo, tudo mudou. O berço continuou a ter palavra importante. Mas não mais decisiva. O mérito passou a determinar o nosso lugar em sociedade. Em teoria, e sobretudo na prática, seria possível, ao filho de um pobre, entrar nos salões de um rico. Bastava, para isso, que o pobre ganhasse o dinheiro necessário para os comprar. As nossas sociedades são a prova provada de que a meritocracia vingou e que o "self-made men" derrotou grande parte dos preconceitos de classe.

E hoje? Hoje, como escreve Toby Young em recente ensaio para a revista "Prospect", a era meritocrática foi enterrada. Depois do berço e do mérito, chegámos à era da celebridade. Podemos nascer no berço certo; podemos até subir a corda social com os nossos próprios pulsos, provando o nosso valor intrínseco; mas se não somos "famosos", ou seja, se não alimentamos o voyeurismo coletivo em que vivemos, não somos rigorosamente nada. Vivemos em sociedades mediatizadas e massificadas. E numa sociedade mediatizada e massificada, é o anonimato, e não a pobreza ou a incompetência, que pesa profundamente sobre a espécie.

Não é de admirar, por isso, que uma parte crescente de seres humanos se sinta cansada do circo instalado; se sinta cansada, enfim, de um mundo de celebridades ocas que, na verdade, parece um "reality show" permanente. Eles imploram para sair do espetáculo na impossibilidade de o derrotarem.

Loucos? Não sou médico. Sou apenas um blogueiro disfarçado de médico. Mas desconfio que existe mais sanidade na loucura dessa gente do que em todos os "reality shows" que rodeiam as nossas vidas.

O nosso legado

Neste ano muito se divulgou e falou de grandes acontecimentos da historia de nosso pais, mas e as resoluções? Pouco divulgado. Em memoria a todos os "estranhos" que ali viveram momentos únicos de suas vidas, está é a maneira de eu criar uma retrospectiva sobre os acontecimentos.

E sobre o Legacy?

O relatório oficial da Aeronáutica sobre o acidente entre o jato Legacy e o Boeing da Gol, que matou 154 pessoas em 29 de setembro de 2006, inocentou completamente o sistema de radares e de equipamentos do controle aéreo brasileiro. Mas condenou a operação desse sistema. "Buraco negro" nos céus brasileiros, como acusavam os controladores em autodefesa, não há. Mas "buraco negro" no trabalho das pessoas há e muito.

Pelo relatório, que também acusa os pilotos norte-americanos do Legacy de despreparo para voar num jato novo e nos céus brasileiros, o nosso sistema de tráfego aéreo é "deficiente de coordenação" e tem "escassez de pessoal". Esses são bons motivos, mas não os únicos, para explicar a verdadeira lambança dos controladores de vôo naquele dia fatídico.

Um jovem de Brasília nem sequer se deu ao trabalho de ler o plano de vôo do Legacy e passou a informação de qualquer jeito. Um maduro e tarimbado de São José dos Campos (SP) sabia que o plano de vôo previa três altitudes, mas deu de ombros e repassou uma só, como recebera de Brasília, para os pilotos. E ainda fez um "link" entre uma só e o destino final do Brasil, o aeroporto Eduardo Gomes, em Manaus. Os pilotos simplesmente trocaram o plano do papel pelo plano autorizado e foram em frente sempre a 37 mil pés. Durante bom tempo, na contramão!

Quando passaram por Brasília, onde deveriam mudar a altitude na primeira vez, não o fizeram. O controlador que deveria ver não viu. E o pior: outro controlador deveria ter mudado a freqüência de rádio, já que o Legacy mudara o "setor", do sul para o norte. Não fez. Não cumpriu sua obrigação.

Conclusão: além de não corrigirem a altitude na hora certa, os controladores também não tiveram como corrigir depois porque inviabilizaram a comunicação via rádio com a aeronave, que passou a ser um míssil perdido no ar.

Para completar, os pilotos não tinham feito o dever de casa e tiraram a atenção do vôo para fazer algo básico: calcular o peso do aparelho no aeroporto de Manaus, com base na fuselagem, nos ocupantes e no combustível. Enquanto um fazia contas no laptop, o outro digitou dois ou mais números, por mais de 20 segundos, numa "caixinha" que acomoda o transponder e o back-up de outros dados --como o de combustível.

Na tentativa de apurar o nível de combustível, eles acabaram botando o transponder em "stand-by", incapaz de detectar a vinda do Boeing em sentido contrário e, portanto, de acionar o TCAS, o sistema que alerta os pilotos do perigo, por meios visuais e sonoros, e indica a manobra evasiva necessária.

Ainda por cima, o jato viajava em regime especial, o RVSM, que permite uma distância menor entre aeronaves no ar. Em qualquer suspeita de perigo, o procedimento imediato é cancelar o RVSM e aumentar a distância para os padrões tradicionais e mais prudentes. Mas o controlador de Manaus, que "recebeu" o Legacy do Cindacta (Brasília), quando ele ultrapassou a área Nabol do mapa aeronáutico, simplesmente não fez essa recomendação.

Sem rádio, sem transponder, sem diligência, sem preparo e na contramão... bem, aconteceu o que aconteceu.

Com a investigação concluída, dois anos depois, inclusive com peritos norte-americanos e canadenses, todo o acidente fica unicamente nas mãos da Justiça. A palavra agora é com ela. Enquanto a gente reza para que os controladores estejam mais espertos e mais bem preparados e não haja pilotos estrangeiros voando sem motivos por ai, não é?

Abs, até amanha

Synecdoche, New York e Kaufman

Os roteiros de Charlie Kaufman provocam um curto-circuito no conceito de autor no cinema, normalmente mais ligado à figura do diretor. Suas obras apresentam elementos temáticos e visuais que as unem, tornando Kaufman uma espécie rara em seu meio, o roteirista-autor. Essa é a tese central de Cecilia Sayad no livro "O Jogo da Reinvenção - Charlie Kaufman e o Lugar do Autor no Cinema", ensaio curtinho e muito bem escrito, recém-lançado pela editora Alameda.

Em 62 páginas, Cecilia faz um necessário preâmbulo sobre o conceito de autor no cinema e depois identifica esses pontos comuns dos roteiros de Kaufman, presentes nos longas dirigidos por Spike Jonze ("Quero Ser John Malkovich", 99; "Adaptação", 02), Michel Gondry ("A Natureza Humana", 01; "Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças", 04) e George Clooney ("Confissões de uma Mente Perigosa", 02).

Na temática, são três os motes principais, as "obsessões" de Kaufman: o corpo como prisão ou fardo, o fascínio pela natureza (a essência perdida) e o desejo de ser aceito socialmente. Na estrutura, os filmes também se assemelham, com narrativas não-lineares, que quase sempre recorrem a flashbacks e amarram várias tramas e personagens.

E há também o que a autora define como o "diferencial" do roteirista: "A elaboração visual dos filmes também evoca o universo de Kaufman". As tramas do escritor pedem a ilustração de metáforas e alegorias de maneira literal, o que resulta em longas de caráter "algumas vezes fabulesco, outras absurdo (quando não fantástico)". Cecilia enumera bons exemplos de como essa opção pelo fantástico se espalha pela obra do roteirista, como na passagem abaixo:

"O desdobramento de Nicolas Cage como Charlie e Donald em 'Adaptação' encontra eco no de Jim Carey em 'Brilho Eterno' nos momentos em que ele fisicamente revisita o seu passado [...]. Esta duplicação da imagem de um só ator em um mesmo plano tem origem em 'Malkovich', quando o personagem que dá nome ao filme decide ingressar no portal que leva ao seu próprio corpo e mergulha num universo habitado por clones de si mesmo."

"O Jogo da Reinvenção" não é a primeira incursão de Cecilia Sayad pela cabeça de Charlie Kaufman. Em 2006, a professora do departamento de cinema da Universidade de Kent publicou na Inglaterra um ensaio sobre "Adaptação" na coletânea "From Camera Lens to Critical Lens" (Cambridge Scholars Press). Antes de Kent, ela deu aulas na universidade de Chicago e na NYU, onde realizou seu doutorado sobre a autoria nos cinemas de Jean-Luc Godard, Woody Allen e Eduardo Coutinho. Antes de se mudar para Nova York, trabalhou na Ilustrada, nos longínquos anos 90.

Falta a este novo livro uma análise da relação entre o Kaufman-roteirista e o Kaufman-diretor, faceta que se revelou neste ano com "Synecdoche, New York". Explica-se: até agora, o filme só estreou comercialmente nos EUA, no mês passado, depois que o ensaio já estava concluído. Para os fãs de Kaufman, a boa notícia é que "Synecdoche" está comprado no Brasil pela distribuidora Imagem. A má é que ainda não tem previsão de estréia. A seguir, o trailer do longa.



O filme conta a história de um diretor de teatro, Caden Cotard (Phillip Seymour Hoffman), que antes de morrer quer criar uma obra prima que deixará sua marca no mundo. Mas entre relações e a necessidade de criar uma obra-prima o personagem Contard não vê a realidade posta a sua frente. Ao longo dos anos Contard acaba alugando variados galpões por Nova York e contrata dezenas de atores para sua peça, que nunca virá a acontecer.


Abs,

Ciber-Desmatamento

É triste ver que tantos de nós ajudamos, enquanto outros que se escondem em conexões ilegais ajudam a acabar com nosso planeta.

O Ministério Público do Pará divulgou na última sexta feira, 12 de dezembro, detalhes de como hackers contratados por 107 madeireiras e carvoarias invadiram o sistema de controle de transporte de madeira que, na época era o Documento de Origem Florestal (DOF). Eles estão sendo acusados de falsificaram os registros online para aumentar a quantidade permitida para comercialização. O Estado do Pará é conhecido nacionalmente por abrigar quadrilhas de hackers, especializadas em fraudar o sistema bancário.

Aproximadamente 1,7 milhão de metros cúbicos de madeira ilegal foram “esquentados” pelo esquema, o suficiente para encher 680 piscinas olímpicas. As multas aplicadas pelo Ministério Público superam os R$ 2 bilhões. De acordo com o promotor Daniel Avelino, muitas destas empresas respondem a diversos outros processos por práticas ilegais. "Aproximadamente metade das empresas envolvidas neste escândalo têm outras acusações pendentes por crimes ambientais ou uso de trabalho escravo”.

A polícia começou a investigar hackers suspeitos em abril de 2007, culminando na prisão de 30 chefes da quadrilha meses depois. Escutas telefônicas registraram as conversas entre as madeireiras, os mentores do esquema e os hackers. O líder do grupo, Menandro, que conectou os hackers aos madeireiros, ainda está na cadeia. Os demais aguardam o processo em liberdade. No total, 202 pessoas estão sendo acusadas.

"O Greenpeace já tinha apontado que este método de controle do transporte de madeira era passível de fraude. E isso é só a ponta do iceberg, pois os sistemas adotados pelos estados e pelo governo federal não são seguros. Além disso, a quantidade de auditores não é suficiente para monitorar e evitar fraudes ", disse André Muggiati, da campanha da Amazônia. "Ao invadir o sistema, estas empresas transformam seus carregamentos ilegais em madeira legal, como se viesse de planos de manejo florestal. Na realidade, eles estão comercializando madeira de desmatamento ilegal. A falta de governança na região estimula este tipo de crime, e reforça a sensação de impunidade”, completa.

Além dos processos referentes ao esquema com hackers, o Ministério Público Federal no Pará também encaminhou ontem à Justiça Federal ações contra as empresas que até 2007 deviam as maiores multas aplicadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no Estado. Entre elas está a madeireira Eidai, que já foi denunciada várias vezes pelo Greenpeace por compra e comercialização de madeira ilegal. As ações ajuizadas nesta quinta-feira compõem a maior quantidade de ações por irregularidades ambientais que a instituição já encaminhou de uma só vez à Justiça Federal no Pará. Os acusados também serão obrigados a reflorestar as áreas desmatadas, calculadas em um total de 364 quilômetros quadrados.

40 anos depois

Roda Viva

Há 40 anos, no dia 4 de outubro de 1968, estreava no Teatro Leopoldina, em Porto Alegre (RS), a peça teatral “Roda Viva”, de autoria de Chico Buarque, sob direção de José Celso Martinez Corrêa. Depois de conturbadas temporadas no Rio de Janeiro e em São Paulo, quando a repressão do regime militar já mostrava total intolerância com as manifestações. Ações de grupos paramilitares intimidavam artistas e quaisquer demonstrações de questionamento. Estava prestes a ser decretado o mais pesado dos Atos Institucionais do Golpe Militar de 1964.

A decretação do AI-5, auge da chamada “linha dura” do regime militar, representou a castração da capacidade criativa, que surgira na década de 1950 com os CPCs (Centro Populares de Cultura), a Bossa Nova, o Cinema Novo, o Teatro de Arena e o Teatro Oficina, além das maiores obras da moderna literatura brasileira. Essas iniciativas explodiram na década de 1960, mas foram progressivamente sendo estranguladas pelas forças reacionárias até que foram definitivamente sufocadas em 1968. Tudo o que representava a identidade artística brasileira foi cruelmente interrompido. A montagem de “Roda Viva”, em Porto Alegre, foi a última que se viu.


No dia seguinte à estréia, a peça já não pode se apresentar. À noite, enquanto discutia o que fazer, o elenco se dividiu. A maior parte seguiu para a casa de um ator de Porto Alegre que fazia aniversário. Apenas três decidiram voltar ao hotel. Mesmo com os sinais da repressão por todos os lados, ninguém poderia imaginar o que os esperava. Um pelotão com mais de 40 pessoas armadas com cassetetes aguardava o elenco na entrada do Rishon Hotel. Dois dos três integrantes do espetáculo conseguiram escapar com algumas escoriações. Um, no entanto, foi cercado na rua e barbaramente espancado. O episódio, vivido por Romário José Borelli, organista da peça “Roda Viva”, de Chico Buarque, quando foi encenada em Porto Alegre, em 1968, retrata um período de intolerância e de repressão à liberdade. A época em que o exílio, a tortura e a morte eram as palavras mais pronunciadas entre os jovens deixou marcas profundas em milhares de brasileiros. Borelli é um deles.

“Um estado ditatorial eventualmente pode tornar-se democrático, mas quem sofreu com a violência nunca vai superar a agressão. Só quem foi vítima da selvageria que se instala durante uma ditadura sabe o que é carregar esse peso para o resto da vida. Por mais que a vida mude em alguns aspectos, essa mancha não sai mais da frente dos olhos e ninguém imagina que, além daqueles dias amargurados, estende-se um calvário particular de noites e noites de pesadelo, que se manifestam com a mesma intensidade quarenta anos depois. Ninguém imagina a recorrência aos remédios para dores no corpo, os pesadelos periódicos, a dependência de anos e anos de psicoterapia. A dor humana não é mensurável”, afirma Borelli, que hoje é historiador, dramaturgo e musicista.

Muitos artistas, afirma Romário, falam da censura como se ela fosse o centro de uma ditadura. “A censura é só um mecanismo de desfecho de um regime autoritário, a mordaça. Antes dela rasgou-se a Constituição, houve tomada de poder, expulsão dos diferentes, intolerância com a alteridade, devassa ideológica e pior, a ocultação de atos vergonhosos, como torturas, assassinatos — muitos executados clandestinamente — e outras barbaridades. Quando vem a censura tudo isso já está instalado. A censura é só a cortina que fecha essa tragédia, o pano de boca. Daí vem os lápis vermelhos nos textos, as receitas de bolo nos jornais e o corte de luz dos teatros. Mas pior do que isso é o constrangimento daqueles que sofreram a repressão, o luto das famílias, etc”.

Para Borelli, resgatar a memória dos fatos ocorridos naquela época significa mostrar às novas gerações o quão grave é ter os direitos básicos negados pelo Estado. “Quando se vive num estado que não lhe protege e se está sujeito às suas leis absurdas, você tem medo cada vez que tocam a campainha da sua casa. Vivemos isso quase vinte anos”, afirma. “A impossibilidade de manifestar vontade própria, mesmo que essa fosse para o bem comum, é uma condição que os jovens de hoje não experimentaram”, diz. Ele ainda vê com indignação as injustiças cometidas em nome do poder e ressalta sua preocupação com a defesa da soberania popular.

Aqueles anos vividos em defesa dos interesses populares, segundo Borelli, representaram a mais autêntica valorização dos direitos fundamentais do indivíduo. Um movimento que havia começado na década de 50 com os Centros Populares de Cultura (CPCs). “No caso do Teatro de Arena, a proposta socialista era clara, por mais utópica que parecesse. Então, é importante que se diga que grande parte daqueles que lutavam por democracia, lutavam também por socialismo, justiça social, transformações”, conta.

Ele entende que a falta de compromisso dos jovens de hoje com as questões coletivas é um prejuízo para o país e deve ser encarado como um desafio para pais e educadores. E, nesse contexto, o que se observa é que a sociedade paga um alto preço pela ausência de uma ideologia voltada para o bem comum. Ou pior, os jovens, sem uma inspiração ideal, se alienam completamente e viram uma espécie de zumbi, que caminham sem opinião com as massas. Quando não, partem para as drogas ou são facilmente cooptados por grupos de extrema-direita.

O dramaturgo defende a postura da sua juventude: “Durante a luta pela liberdade só se conseguia pensar que valia a pena lutar, conspirar, escrever, cantar a liberdade. Esse era o mote. Não havia espaço na cabeça para outra postura”, afirma. Ele explica que, quando se tem o compromisso com a real democracia, também não há espaço para dúvida. Depois, quando se consegue a democracia, com a multiplicidade de inserções permitida, há momentos de perplexidade. Mas esse era o objetivo afinal, propor reflexão, diversidade de opiniões para formar o consenso, e não deixar que isso seja tratado apenas como “tarefa de filósofos ou sociólogos”.

A constatação de Borelli é de que é saudável assumir a defesa do bem comum, pela própria natureza contestadora dos jovens, que muda conceitos e questiona a ordem mundial. Danos pessoais à parte, ele ressalta a importância de se reconhecer como um agente de resistência e com interferência positiva na mudança da realidade, o que não se percebe nas novas gerações. Toma como exemplo as questões elementares da atualidade como a sustentabilidade e a acessibilidade, mas que não se nota engajamento efetivo da juventude nessas temáticas de suma importância para a humanidade.

Ele questiona as formas modernas de ditadura. Segundo ele, há ações disfarçadas que limitam a cidadania nos dias atuais: “São formas de restrição da liberdade que ainda não estão catalogadas pela história ou pela sociologia”, diz. Ele descreve uma situação nova, muito mais poderosa, que alia os mecanismos de controle de uma sociedade cada vez mais complexa, com os interesses do capitalismo, a luta contra o crescimento da economia informal dentro da sociedade e a infiltração das gangues no mecanismo do Estado.

Por outro lado, o desenvolvimento da informática dá acesso a informações inusitadas e torna cada vez mais difícil manter o anonimato, colocando na mão do Estado as ferramentas de controle sobre o indivíduo. “Parece que George Orwell tinha razão, finalmente – não é à toa que os microcomputadores foram lançados em 1984”, lembra Borelli.

Para ele, agora, o Estado se sente no direito de controlar tudo pelo poder da polícia, desde a economia até a sexualidade das pessoas. “A sociedade, ainda nem se recuperou por completo da ditadura militar e já se entrega a essa nova forma de dependência da ação centralizadora do estado”, diz.

Questionado sobre o quanto foi compensador ter participado desse momento histórico, ele é categórico ao responder: “Muitos mudaram de posição, atenuaram seus anseios, cortaram as próprias asas, de qualquer forma, valeu a pena, sim. Não saberia ser diferente e faria tudo novamente. Faria mais”, conclui.

Agradeço ao Studio Graphico Comunicação pelas informações e ao Romário José Borelli.

abs,