O Último Português da China

Toca o telefone no escritório de advocacia do escritor macaense Henrique de Senna Fernandes. Chamada de São Paulo. Em Macau, ex-colônia portuguesa na Ásia e desde 1999 região administrativa especial da República Popular da China, os relógios estão no futuro — nesta época do ano, dez horas a mais em relação ao Brasil —, mas o idioma no qual se expressa o jornalista que procura pelo autor ficou no passado. "Can you speak in English?", pergunta do outro lado da linha, com voz constrangida e sotaque achinesado, uma assistente de Senna Fernandes, logo que ouve as primeiras palavras na língua da antiga metrópole.

O episódio reforça a ideia de que Senna Fernandes (1923) talvez represente o último capítulo de peso da história da literatura produzida em português no continente asiático — ou, ao menos, em Macau. Assim, a publicação no Brasil de dois livros do ficcionista, Nam Van (contos, 1978) e Amor e Dedinhos de Pé (romance, 1986), já constituiria, por si só, um acontecimento editorial. Há, no entanto, algo mais a sublinhar: a obra do autor é um paradigma da expressão identitária de Macau, moldada a partir da fricção entre as tradições portuguesa e chinesa, disso resultando uma "cultura de encontro". "O macaense é precisamente o produto do equilíbrio de várias culturas, entre as quais se destacam a portuguesa, a raiz, e a chinesa, o solo. Eu sempre quis mostrar essa possibilidade de duas culturas tão díspares encontrarem uma plataforma de entendimento e de adaptação, criando um mundo novo", explicou o escritor em entrevista a BRAVO!.

A primeira providência tomada por Senna Fernandes para alcançar esse objetivo foi pôr os macaenses no centro da ação narrativa. O prodígio, conforme observa Mônica Simas em Oriente, Engenho e Arte, coletânea de ensaios de vários estudiosos sobre imprensa e literatura produzidas em português na Ásia, significou um "deslizamento subversivo" das estruturas literárias até então praticadas. Em obras como a de Jaime de Inso (1880-1967), por exemplo — oficial da Marinha lusa que serviu em Macau na década de 1920 —, os nativos da colônia não passavam de "personagens secundários".

Escritos com apuro técnico e cuidadosa construção de personagens, Nam Van e Amor e Dedinhos de Pé são representativos do projeto literário do autor. O volume de contos parece já querer concretizá-lo desde o título: Nam Van é a denominação chinesa da Praia Grande, o coração social e administrativo de Macau, além de "zona residencial preferida da população". Em suas cercanias, Senna Fernandes nasceu e passou parte da infância e lá foi morar quando regressou a Macau, depois de se formar no curso de direito na Universidade de Coimbra, para não falar que ele atribui ao local a inspiração de seus textos iniciais — o que vale dizer que, para além do jogo linguístico de reunir histórias em português sob um título chinês, o nome da obra relaciona as memórias espacial, coletiva e pessoal.

Os Livros:
Amor e Dedinhos de Pé (286 págs., R$ 45,90)

e Nam Van (138 págs., R$ 29,90),
de Henrique de Senna Fernandes. Editora Gryphus.

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