Cartas Sobre Hipermodernidade

Reconhecido como um dos principais teóricos da hipermodernidade, o filósofo Sébastien Charles disseca, por meio de dez cartas, esse conceito em seu mais recente livro Cartas sobre a hipermodernidade, lançamento da Editora Barcarolla. O autor estará no Brasil para dois lançamentos: dia 17 de março na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi, em Campinas, à Avenida Iguatemi, 777 (lojas 4 e 5, piso 1), a partir das 19 horas; em São Paulo, haverá noite de autógrafos no dia 19, das 18h30 às 21h30 na Livraria da Vila Lorena, à Alameda Lorena, 1731, Jardins.

O autor acredita que a sociedade hipermoderna caracteriza-se pela indiferença ao bem público, pela prioridade freqüentemente dada ao presente, em detrimento do futuro, pela valorização dos particularismos e dos interesses corporativistas, pela desagregação do sentido de dever ou da dívida com a coletividade. “Um novo pacto social é, portanto, mais indispensável do que nunca”, ele afirma.

Charles parte da crítica à idéia de pós-modernidade, que caracterizou a nova fisionomia das sociedades ocidentais modernas a partir do fim dos anos 1970, marcada pela falência das grandes utopias e pelo desenvolvimento de uma nova cultura individualista centrada no presente, que privilegia a autonomia individual, o consumismo, o hedonismo. Com o advento da globalização e das novas tecnologias da informação, reconfigurou-se a idéia de presente, com a incorporação das trocas econômicas e simbólicas em tempo real e um sentimento de imediatismo que tornou os indivíduos menos pacientes e alérgicos à perda de tempo.

Segundo o filósofo, essa valorização do presente, embora justa, está defasada com a idéia de pós-modernidade, quando se indicava o desaparecimento da modernidade. Não vivemos, afirma Charles, “o fim da modernidade, mas uma nova modernidade, uma intensificação da modernidade elevada à potência superlativa. Não estamos em uma era ‘pós’, mas ‘hiper’”.

Passamos da modernidade à hipermodernidade, uma modernidade de segundo grau, própria de sociedades sem contra-modelos, que repousa sobre as mesmas bases da modernidade, lançadas no século XVIII: o mercado, a eficiência técnico-científica, o indivíduo e a democracia pluralista. Durante o período de esplendor da idéia de pós-modernidade, a emergência de novos modos de vida, a ilusão de um sentimento de liberdade, a decadência dos ideais militantes, entre outros fatores, colocaram entre parênteses as contradições e os conflitos. O momento da hipermodernidade é de desencanto: o leque de possibilidades de mudança social se reduziu, a insegurança suplantou a despreocupação pós-moderna, o hedonismo recuou.

O presente continua tendo força, mas as relações com o passado e o futuro se recompuseram. A preocupação com o futuro está presente na sensibilidade ecológica, por exemplo. Mas essa preocupação vai muito além disso. Segundo Sébastien Charles, ela contempla três fatores: as relações de trabalho, marcadas pela vulnerabilidade do trabalhador e pelo desemprego; a saúde, caracterizada por preocupações de prevenção e longevidade; as relações do indivíduo consigo mesmo, que se distinguem pelo fato de a dinâmica da individualização e os meios de informação funcionarem como instrumentos de distanciamento, de introspecção.

A cultura hipermoderna se diferencia pelo enfraquecimento do poder regulador das instituições coletivas e pela autonomia dos indivíduos em relação às imposições dos grupos, sejam eles a família, a religião, os partidos políticos. O indivíduo aparece mais móvel, fluido e socialmente independente. Mas tal volatilidade significa mais uma desestabilização do ego do que afirmação triunfante do homem senhor de si mesmo.

Se os modernos queriam fazer tábula rasa do passado, hoje ele está sendo reabilitado. A valorização da memória, do patrimônio histórico, o demonstra. “A hipermodernidade não é estruturada por um presente absoluto, mas por um presente paradoxal, que não cessa de exumar e de redescobrir o passado”, sustenta o filósofo.

Não se pode negar que o mundo de hoje suscita mais inquietudes do que otimismo: o fosso entre Norte e Sul aumenta, assim como as desigualdades sociais, a insegurança se torna uma obsessão, o mercado globalizado reduz a força das democracias. Mas isso autoriza a diagnosticar um processo de “rebarbarização” do mundo no qual a democracia é apenas uma “pseudo-democracia” e um “espetáculo comemorativo”? Fazer isso significaria subestimar a capacidade de autocrítica e de auto-correção que continuam existindo no universo democrático liberal. “A era do presente é tudo menos fechada, fadada ao niilismo exponencial. Como a depreciação dos valores supremos não é sem limites, o futuro da hipermodernidade permanece aberto e não impede de trabalharmos por regulações mais justas. Devemos trabalhar nessa direção e não apenas sonhar”, observa Charles.

Agradeço a Ivani Cardoso e Lu Fernandes Escritório de Comunicação, pelas informações.

abs,

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