Sobre violência doméstica

Conheça o projeto que discute a violência doméstica a partir da subjetividade masculina.

Estimativas da Organização das Nações Unidas apontam que, a cada ano, são registradas 205 mil agressões contra mulheres no Brasil. Estudos realizados em vários países demonstram que a cada quatro casais, um sofre com a violência doméstica. O projeto de pesquisa “Processos de construção da subjetividade masculina: psicologia, sexualidade, conjugalidade e paternidade, atravessados pela violência doméstica, educação de gêneros e cultura patriarcal”, da Faculdade de Psicologia da Universidade Federal do Pará, busca analisar a violência doméstica a partir da reflexão sobre os homens.

“No contexto da agressão, não podemos apenas tipificar ou enquadrar o homem como o ‘agressor’ e a mulher como a ‘agredida’. Ambos os sexos vitimizam e são vitimizados. A diferença é a modalidade de violência que a sociedade atribui a cada um”, explica a coordenadora do Projeto, Adelma Pimentel. “O tipo de violência está relacionado à teia social à qual pertencem os indivíduos. Embora ambos pratiquem as várias formas de agressão, tendemos mais a relacionar as mulheres como praticantes da violência psicológica ou emocional e imaginamos que os homens manifestarão a violência física. Isso está relacionado aos estereótipos presentes na cultura de gêneros, os quais ainda imperam na sociedade contemporânea, no patriarcado, nas relações hierárquicas de poder, nas desigualda des e no desrespeito aos direitos humanos”.

Para a pesquisadora, desde a confirmação da gravidez, a família cria uma expectativa prevendo, inclusive, atividades e comportamentos de acordo com o sexo do bebê. “Os estereótipos masculinos e femininos permeiam a vida da criança mesmo antes dela chegar ao mundo e podem, talvez, impedir que o bebê se desenvolva para além das expectativas que são criadas a partir de projeções a respeito do seu sexo. Tais determinações demonstram o aprisionamento dos papéis sociais em torno dos gêneros”.

Força, domínio e virilidade

De acordo com Adelma Pimentel, é complexa a formação da subjetividade masculina. “O que é ser homem? Uma definição comum dada por eles é simplesmente não ser mulher. Assim, todas as características atribuídas ao feminino devem ser negadas. Se a mulher é socialmente definida como ‘frágil e delicada’, o homem deve ser forte e bruto. A identidade do homem é, então, marcada pela tríade: força, domínio e virilidade, que culmina no chamado machismo patriarcal”.

A superação desse padrão pode acontecer por meio da perspectiva de que homens se tornam homens pela convivência com outros homens e com mulheres. “Também é possível a desconstrução dos mitos sobre a afetividade e a expressividade masculina a partir de uma socialização emancipatória, que atualize as regras que ‘obrigam’ o menino a ser competitivo e rejeitar o contato físico. Nas rodas de conversa, o menino fala do brinquedo e não de si mesmo. O adolescente luta e intimida os ‘mais fracos’. O adulto sofre, silenciosamente, a força de ser masculino. Embora tenhamos novos horizontes para a formação da subjetividade masculina, esse cenário do desenvolvimento emocional continua válido para todos os segmentos socioeconômicos”, explica a pesquisadora.

O aprendizado no núcleo familiar, na escola e com os amigos influencia na compreensão do papel social do indivíduo e contribui para a elaboração de uma escala de valores que guia suas ações e sentimentos, forjando várias formas de violência.

Reconfiguração das relações afetivas

Segundo Adelma Pimentel, entre os motivos que levam o homem a se tornar agressor estão o não provimento das necessidades materiais, o não reconhecimento dos significados dos atos violentos, a perda da sensibilidade, a passividade da vítima e uma cultura familiar desestruturada.

No texto da Lei Maria da Penha, está previsto um trabalho de acompanhamento do homem que desempenha o papel de agressor. “A criação de programas de atendimento ao homem, ao casal e à família permite instalar a lógica da diversidade que envolve todos os atores no processo de reconfiguração das relações afetivas. Entendemos que não é possível enfrentar a superação da violência doméstica a partir do cuidado segmentado e exclusivo com a mulher, porém, é necessário compreender o sistema que determina o papel de homens e mulheres na sociedade e como esses mecanismos interferem na violência domiciliar. Tal perspectiva possibilita criarmos propostas de intervenção e de tratamento mais eficazes”, argumenta Adelma Pimentel.

No livro “Cuidado paterno e enfrentamento da violência”, a pesquisadora apresenta algumas propostas de tratamento como, por exemplo, identificar o ciclo da violência doméstica. “Tudo inicia com a acumulação da tensão entre o casal, seguida por um incidente de violência. Após o ato violento, o agressor se arrepende, pede perdão e é perdoado ao prometer que não repetirá o crime. A harmonia volta ao lar, temporariamente, até que o ciclo se reinicie”, explica a psicóloga.

A investigação sobre a violência doméstica, entrelaçada à subjetividade masculina e feminina, faz parte do programa de estudos acerca do desenvolvimento humano e dos sistemas familiares, realizado pela pesquisadora desde 2005. Em 2008, o projeto trabalhou com um grupo de homens agressores atendidos na Delegacia da Mulher em Belém.

Estudo revela perfil dos agressores em Belém

Na primeira fase do estudo, a coleta de dados envolveu questionários, entrevistas individuais e leitura de prontuários de 14 homens detidos, com idade entre 20 e 40 anos. Na segunda fase, quatro homens participaram de reuniões de grupo, que aconteciam duas vezes por semana, com duração de duas a quatro horas. “Era um grupo terapêutico e educacional. Nosso objetivo era trabalhar com eles a compreensão da cultura de gênero e a descontinuidade da violência física, bem como oferecer pequenas experiências de contato”, explica a pesquisadora.

Os primeiros resultados da pesquisa revelam um perfil dos homens agressores em Belém. “São homens sem a mínima instrução, sem profissão específica, com dificuldades em elaborar o pensamento acerca da violência doméstica e de restrita comunicação interpessoal. Observamos que a preocupação desses homens se voltava às suas necessidades materiais imediatas, ao seu sustento físico, social, econômico e fisiológico”, conta a psicóloga.

Atualmente, a pesquisa está sendo realizada, também, na Clínica de Psicologia da UFPA, onde mulheres agredidas pelos companheiros são atendidas no estágio supervisionado em Psicologia Clínica. O próximo passo é ampliar os estudos para um universo de homens não agressores. Voluntários que queiram participar podem acessar o site www.cultura.ufpa.br/nufen.

“Somente ao reconhecer o que causa e em que condições as agressões acontecem, será possível enfrentá-las. Características como suavidade, força ou seriedade não estão vinculadas à ‘natureza’ da mulher ou do homem, e sim, à teia social da cultura em que elas se inserem. É preciso refletir continuamente sobre os papéis sociais que desempenhamos e rever as limitações impostas pelos estereótipos de gênero e pela cultura patriarcal. O tripé autoestima, autoconceito e autoimagem, construído através de uma nutrição psicológica saudável, criativa e processual, pode contribuir para formação de indivíduos confiantes, autônomos e não violentos”, conclui Adelma Pimentel.

Agradeço ao Glauce Monteiro, Adelma Pimentel e a Assessoria de Comunicação Insitucional da Universidade Federal do Pará pelas informações aqui citadas.

abs,

2 comentários:

  1. Competente e oportuna reportagem, Júlio, neste momento em que cresce a violência doméstica, em especial a física contra a mulher. Provavelmente, sempre foi assim, com a diferença de que não tinha tanto espaço na imprensa.
    Me lembrei da música o Casamento dos Pequenos Burgueses, de mestre Francisco:
    Vão viver sob o mesmo teto
    Até trocarem tiros
    Até trocarem tiros

    Que assim não seja. Um abraço.

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  2. MUITO BOM ESSES CONHECIMENTOS, SOBRE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E COM ISSO, PERCEBER QUE O HOMEM PRECISA DE TRATAMENTO E NÃO SÓ PUNIÇÃO. GOSTARIA MUITO DE SABER MAIS SOBRE ESSE TEMA, POIS SOU ALUNO DE SERVIÇO SOCIAL E GOSTARIA DE FAZER MEU TRABALHO COM HOMENS AGRESSORES.

    MEU E-MAIL É JOHN_KLEVERSON@HOTMAIL.COM
    DESDE JÁ AGREDEÇO A SUA ATENÇÃO.

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