Pedofilia da Sétima Arte

Deve um homem de 77 anos pagar por um crime cometido há três décadas? Depende do crime. Se falamos de furto ligeiro ou abuso de liberdade de expressão, não existe uma única alma compassiva que não encolha os ombros e mande o sujeito em paz. A velhice, por vezes, já foi castigo que bastasse.

Mas o cenário muda radicalmente quando o homem em questão drogou e violou [sexualmente] uma jovem de 13 anos. Aqui, o meu coração estremece. E as dúvidas, confesso, transformam-se em pó. Não que seja um púdico nessas matérias: posso entender que um adulto se sinta atraído por uma menor, desde que este "menor" em causa demonstre um grau de maturidade sexual e emocional que relativize a questão etária. Mas uma violação é uma violação é uma violação.

O auditório talvez concorde comigo. Mas o mesmo auditório sente dúvidas quando trocamos a expressão "homem de 77 anos" pelo nome "Roman Polanski".

Duas semanas atrás, o famoso diretor polonês foi preso na Suíça e agora corre o risco de ser extraditado para os Estados Unidos. Motivo conhecido: em 1977, na casa do amigo Jack Nicholson, em Los Angeles, Polanski, então com 44, drogou e violou Samantha Gailey, então com 13. Levado a tribunal, e após acordo entre as partes, a acusação abandonou o crime de violação e ficou-se por relações sexuais com uma menor. Polanski aceitou o negócio, confessou o crime e, depois da confissão, fugiu dos Estados Unidos. Nunca mais lá voltou. E agora?

Agora, políticos de toda a Europa e a elite cinematográfica de Hollywood clamam pela libertação de Polanski. Argumentos? Vários. Uns dizem que Polanski já cumpriu a sua pena, ao ser forçado ao "exílio na Europa" durante 30 anos. Outros evocam o passado trágico do homem: a família que pereceu no Holocausto; a sua condição de sobrevivente ao genocídio nazista; o brutal homicídio da mulher, a modelo Sharon Tate, às mãos da quadrilha Manson. E todos relembram que a própria "vítima" já perdoou a Polanski.

Não vale a pena perder tempo com nenhum destes argumentos: o "exílio na Europa" [como se a Europa fosse o Ruanda e Polanski tivesse nascido em Marte]; um passado de tragédias pessoais; e até o perdão de Samantha Gailey não alteram a natureza do crime, que nenhuma sociedade civilizada pode ignorar.

Os argumentos em defesa de Polanski servem apenas para iludir, de forma hipócrita, uma verdade essencial: ninguém defenderia Roman Polanski se ele não fosse um "artista". No fundo, ninguém defenderia Polanski se não persistisse entre nós a ideia romântica [no sentido próprio do termo] de que os "artistas" não se submetem ao mesmo código ético e legal que regula a humanidade inteira. Pelo contrário: os "artistas" criam a sua própria moral e, no limite, serão julgados por ela.

Defender Roman Polanski apenas porque ele é Roman Polanski é dizer, implícita e perversamente, que a pedofilia é tolerável desde que o pedófilo dirija filmes.

Inaceitavel.

abs,

2 comentários:

  1. Fazia tempo que não lia um post seu, tinha me esquecido o quanto suas opiniões abrem minha mente.
    Eu não saberia transmitir tão bem a indgnação que os fatos causam.

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  2. Perfeito, Júlio. Se alguns são mais iguais do que os outros, o que temos é injustiça, discriminação, descrédito do judiciário e caminho aberto para o caos, o vale tudo social. Os EUA, até onde sei, prezam a idéia de que todos são iguais perante a lei. Pelos menos mais do que o Brasil. Aqui o judiciário é bem mais flexível, como prova o caso do jornalista Antonio Pimenta Neves, o réu confesso do assassinato da ex-namorada (três tiros nas costas), julgado e condenado em duas intâncias judiciais e ainda livre, 10 anos depois do crime. Um império não se contrói apenas com dinheiro. É preciso também valores éticos e morais sólidos. Não é, ainda, o caso do Brasil. Um dia chegaremos lá, se Deus quiser. Como é público e notório que Deus é brasileiro, chegaremos, com certeza.

    Um abraço.

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