Fiódor, Fiódor

Este post faz parte da 3º edição do Bookcrossing Blogueiro.

Era uma noite maravilhosa, uma dessas noites que apenas são possíveis quando somos jovens, amigo leitor. O céu estava tão cheio de estrelas, tão luminoso, que quem erguesse os olhos para ele se veria forçado a perguntar a si mesmo: será possível que sob um céu assim possam viver homens irritados e caprichosos?

Quem mora em megalópoles sempre tem essa sensação de uma noite clara, Fiódor Dostoiévski tinha essa percepção com um fenômeno comum na Europa em que, mesmo com o Sol se pondo ele permanece um pouco abaixo da linha do horizonte, deixando a noite clara, causando uma atmosfera onírica e, assim ele começa o, possivelmente único livro lúcido do autor, “Noites Brancas”.

Assim foi a minha participação na 3º edição do Bookcrossing Blogueiro. Logo que finalizada todas as tarefas do dia, ainda via minha copia de “Dostoiévski” no banco do carro. Perguntei-me em qual momento ou lugar, seria interessante deixá-lo. Quando novamente abri o primeiro capitulo do livro. O mesmo citava:





Meditando sobre senhores caprichosos e irritados, não pude impedir-me de recordar a minha própria conduta — irrepreensível, aliás — ao longo de todo esse dia. Logo pela manhã, fora atormentado por um profundo e singular aborrecimento. Subitamente afigurou-se-me que estava só, abandonado por todos, que toda a gente se afastava de mim. Seria lógico, na verdade, que perguntasse a mim mesmo: mas quem é, afinal, toda a gente? (...)

O final desta parte do livro termina com uma questão humana, muito comum no dia-a-dia. 

“Fui tomado pelo receio de me encontrar só e durante três dias inteiros errei pela cidade mergulhado numa profunda melancolia, sem nada com­preender do que se passava comigo.”

Foi quando, logo me veio um local quase descrito pelo próprio livro. Veja bem, São Paulo é uma cidade grande, e com isto, vem um potencial enorme de te fazer sentir acolhido ou solitário em suas várias maneiras de ver o mundo. Lembro de vários momentos ter pensado de maneira bem similar ao citado acima.

A região da paulista, já retratada aqui em outros textos, é um cartão postal imponente. Remete automaticamente toda a cultural paulistana ou paulista que ali passam. Está disponível para todo e qualquer pessoas, de qualquer nacionalidade. Aos seus arredores, abraça todo tipo de comércio, de lanchonete a lojas de grifes, de prédios comerciais a pequenas casas quase que escondidas. E foi justamente nesta avenida que logo as primeiras frases do texto me remeteram. Para cada pessoa, e meio ambiente alguém se lembraria de um local diferente, mas vamos lembrar o nome do personagem principal... “Sonhador”

“Durante uma das maravilhosas 'noites brancas' do verão de São Petersburgo, em que o sol praticamente não se põe, dois jovens se encontram numa ponte sobre o rio Nievá, dando início a uma história carregada de fantasia, emoção e lirismo. Nesta novela singular, publicada em 1848, Dostoiévski constrói uma atmosfera delicada e fantasmagórica, que evoca o gosto romântico da época. Nela, a própria cidade de São Petersburgo - com seus palácios e pontes, seus espaços monumentais - revela-se como personagem.”

Logo ao chegar à avenida, continuava relembrando do conto, olhava para todas as pessoas passando, de maneira rápida, alguns com emoções outros cheios de razões e muitos curiosos... Foi quando me lembrei o quanto eu realmente não me adapto ao estilo do "calçadão da Paulista". – Vamos mais devagar, povo! A vida é bela, a noite é só sua.

Seguindo pelos cartões postais já tão conhecidos, eu já tinha em mente onde deixar, na escadaria da Casa das Rosas. A escolha não foi apenas por ser um local de leituras poéticas, grandes lançamentos, obter uma história única junto à cidade ou já contar que somente bons leitores passam por ali (até porque a escadaria é bem enfrente a própria avenida), foi mais conceitual que o obvio.

Encostei o carro, deixei o livro nas escadarias e segui meu caminho.

Antes de deixar o livro, reli pela última vez a última linha:

“Um momento inteiro de felicidade! Não será isto o bastante para inundar toda uma vida?”

Confira aqui todos os participantes da 3º edição do Bookcrossing Blogueiro. Incentivado pela minha Luz de Luma. E se tiver curiosidades da minha primeira participação, o texto está aqui.

Até a próxima edição, seres pensantes!

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