Água em questão

Quando chove assim lá fora e as idéias não se afogam, a gente tem que admitir outra vez que a água é um dos maiores bens naturais da natureza. Acho mesmo impossível, pro cidadão comum, leitor do Jornal do Brasil, do Globo, da Folha de S. Paulo, e até da Veja, imaginar a possibilidade de formas orgânicas sem a existência da água.

Mesmo elementos de nossa vida a que nem prestamos atenção no dia a dia – por exemplo, o chá sem torrada e o refigerante diet – dependem da água para seus urgentes efeitos diuréticos.

E também as Sete Quedas do Iguaçu [creio que até cachoeiras menores] não cairiam se não fossem constituídas de notável percentual de água. Embora ninguém possa ignorar certa participação da gravidade. Que, imperceptível, essa nunca nos falta, sobretudo como metáfora.

Mas é só olhar: a água, que, dizem, é dois terços do universo, nos cerca por todos os lados, exceto quando a bebemos e invertemos a situação, cercando ela. Dizem mesmo que o homem – e a mulher também, mas só as rechonchudinhas – se compõe de 95% de água, completando-se os 100% com dois dedos de uísque e três pedrinhas de gelo.

Está mesmo provado que todas as nossas células são feitas de água e vivem mergulhadas n’água, donde os antigos só falarem em nosso corpo como composto de humores, sobretudo o dos humoristas, mas acho que até o dos que não têm a menor graça.

Bom, além d’água, nossas células contêm proteína, albumina, benzina, buzina, sais minerais, creme de leite, vinagre e azeite. Tudo isso faz uma linfa [não confundir com ninfa, toda uma outra coisa] que, misturada com o que se está ingerindo no momento e ainda não teve tempo de se transformar em nada muito definido, dá um melê de meter nojo, que felizmente não se vê, mas, ao fim e ao cabo, sempre aquoso. Enfim, corpo humano sem água não dá papo.

Naturalmente, sendo o corpo cheio d’água, se você bebe água demais, o metabolismo, acho que porque não sabe nadar, tem que transformar essa água em outra coisa, não sei bem o quê, qualquer uma. Metabolismo é assim mesmo. Totalmente caótico com ar de extrema organização, igualzinho a repartição pública – ninguém sabe o que está fazendo, mas faz em quatro vias. Até na internet.

O fato é que todas as células acabam retendo os tais 95% de água, mais a dose do scotch e as três pedrinhas de gelo. E fazem bem em reter isso tudo, principalmente quando a gente está na estrada e o rapaz do posto de gasolina saiu com a chave do toalete.

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Esta crônica faz parte do Movimento Blog Action Day - Climate Change, no próximo dia 15 de Outubro. Participe.



Abs,

Kafka e as baratas

Uma crônica de Luiz Fernando Verissimo.

A Metamorfose

A barata acordou um dia e viu que tinha se transformado num ser humano. Começou a mexer suas patas e descobriu que só tinha quatro, que eram grandes e pesadas e de articulação difícil. Acionou suas antenas e não tinha mais antenas. Quis emitir um pequeno som de surpresa e, sem querer, deu um grunhido. As outras baratas fugiram aterrorizadas para trás do móvel. Ela quis segui-las, mas não coube atrás do móvel. O seu primeiro pensamento humano foi: que horror! Preciso me livrar dessas baratas!

Pensar, para a ex-barata, era uma novidade. Antigamente ela seguia o seu instinto. Agora precisava racionar. Fez uma espécie de manto da cortina da sala para cobrir sua nudez. Saiu pela casa, caminhando junto à parede, porque os hábitos morrem devagar. Encontrou um quarto, um armário, roupas de baixo, um vestido. Olhou-se no espelho e achou-se bonita. Para um ex-barata. Maquilou-se. Todas as baratas são iguais, mas uma mulher precisa realçar a sua personalidade. Adotou um nome: Vandirene. Mais tarde descobriu que só um nome não bastava. A que classe pertencia? Tinha educação? Referência ? Conseguiu, a muito custo um emprego como faxineira.

Sua experiência de barata lhe dava acesso à sujeiras mal suspeitadas, era uma boa faxineira.

Difícil era ser gente. As baratas comem o que encontram pela frente. Vandirene precisava comprar sua comida e o dinheiro não chegava. As baratas se acasalam num roçar de antenas, mas os seres humanos não. Se conhecem, namoram, brigam, fazem as pazes, resolvem se casar, hesitam. Será que o dinheiro vai dar? Conseguir casa, móveis, eletrodomésticos, roupa de cama, mesa e banho. A primeira noite. Vandirene e seu torneiro mecânico. Difícil. Você não sabe nada, bem? Como dizer que a virgindade é desconhecida entre as baratas? As preliminares, o nervosismo. Foi bom? Eu sei que não foi. Você não me ama. Se eu fosse alguém você me amaria. Vocês falam demais, disse Vandirene. Queria dizer vocês, os humanos, mas o marido não entendeu; pensou que era vocês os homens. Vandirene apanhou. O marido a ameaçou de morte. Vandirene não entendeu. O conceito de morte não existe entre as baratas. Vandirene não acreditou. Como é que alguém pode viver sabendo que ia morrer?

Vandirene teve filhos. Lutou muito. Filas do INPS. Creches. Pouco leite. O marido desempregado. Finalmente, acertou na esportiva. Quase quatro milhões. Entre as baratas, ter ou não ter quatro milhões não faria diferença. A barata continuaria a ter o mesmo aspecto e a andar com o mesmo grupo. Mas Vandirene mudou. Empregou o dinheiro. Trocou de bairro. Comprou casa. Passou a se vestir bem, a comer e dar de comer de tudo, a cuidar onde colocava o pronome. Subiu de classe. (Entre as baratas, não existe o conceito de classe). Contratou babás e entrou na PUC. Começou a ler tudo o que podia. Sua maior preocupação era a morte. Ela ia morrer. Os filhos iam morrer. O marido ia morrer – não que ele fizesse falta. O mundo inteiro, um dia, ia desaparecer. O sol. O Universo. Tudo. Se espaço é o que existe entre a matéria, o que é que fica quando não há mais matéria? Como se chama a ausência do vazio? E o que será de mim quando não houver mais nem o nada? A angústia é desconhecida entre as baratas.

Vandirene acordou um dia e viu que tinha se transformado de novo numa barata. Seu penúltimo pensamento humano foi, meu Deus, a casa foi dedetizada há dois dias! Seu último pensamento humano foi para o seu dinheiro rendendo na financeira e o que o safado do marido, seu herdeiro legal, faria com tudo. Depois desceu pelo pé da cama e correu para trás de um móvel. Não pensava mais em nada. Era puro instinto. Morreu em cinco minutos, mas foram os cinco minutos mais felizes da sua vida. Kafka não significa nada para as baratas.

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abs,

Pedofilia da Sétima Arte

Deve um homem de 77 anos pagar por um crime cometido há três décadas? Depende do crime. Se falamos de furto ligeiro ou abuso de liberdade de expressão, não existe uma única alma compassiva que não encolha os ombros e mande o sujeito em paz. A velhice, por vezes, já foi castigo que bastasse.

Mas o cenário muda radicalmente quando o homem em questão drogou e violou [sexualmente] uma jovem de 13 anos. Aqui, o meu coração estremece. E as dúvidas, confesso, transformam-se em pó. Não que seja um púdico nessas matérias: posso entender que um adulto se sinta atraído por uma menor, desde que este "menor" em causa demonstre um grau de maturidade sexual e emocional que relativize a questão etária. Mas uma violação é uma violação é uma violação.

O auditório talvez concorde comigo. Mas o mesmo auditório sente dúvidas quando trocamos a expressão "homem de 77 anos" pelo nome "Roman Polanski".

Duas semanas atrás, o famoso diretor polonês foi preso na Suíça e agora corre o risco de ser extraditado para os Estados Unidos. Motivo conhecido: em 1977, na casa do amigo Jack Nicholson, em Los Angeles, Polanski, então com 44, drogou e violou Samantha Gailey, então com 13. Levado a tribunal, e após acordo entre as partes, a acusação abandonou o crime de violação e ficou-se por relações sexuais com uma menor. Polanski aceitou o negócio, confessou o crime e, depois da confissão, fugiu dos Estados Unidos. Nunca mais lá voltou. E agora?

Agora, políticos de toda a Europa e a elite cinematográfica de Hollywood clamam pela libertação de Polanski. Argumentos? Vários. Uns dizem que Polanski já cumpriu a sua pena, ao ser forçado ao "exílio na Europa" durante 30 anos. Outros evocam o passado trágico do homem: a família que pereceu no Holocausto; a sua condição de sobrevivente ao genocídio nazista; o brutal homicídio da mulher, a modelo Sharon Tate, às mãos da quadrilha Manson. E todos relembram que a própria "vítima" já perdoou a Polanski.

Não vale a pena perder tempo com nenhum destes argumentos: o "exílio na Europa" [como se a Europa fosse o Ruanda e Polanski tivesse nascido em Marte]; um passado de tragédias pessoais; e até o perdão de Samantha Gailey não alteram a natureza do crime, que nenhuma sociedade civilizada pode ignorar.

Os argumentos em defesa de Polanski servem apenas para iludir, de forma hipócrita, uma verdade essencial: ninguém defenderia Roman Polanski se ele não fosse um "artista". No fundo, ninguém defenderia Polanski se não persistisse entre nós a ideia romântica [no sentido próprio do termo] de que os "artistas" não se submetem ao mesmo código ético e legal que regula a humanidade inteira. Pelo contrário: os "artistas" criam a sua própria moral e, no limite, serão julgados por ela.

Defender Roman Polanski apenas porque ele é Roman Polanski é dizer, implícita e perversamente, que a pedofilia é tolerável desde que o pedófilo dirija filmes.

Inaceitavel.

abs,

Amores de uma cidade

Primeiro veio Paris, te amo [Paris, Je T'aime - 2006], que conta, através de 18 curtas-metragens de 21 diretores diferentes, histórias de amor que se passam na cidade luz. Alguém ai se lembra das histórias? Foi uma idealização diferente de se mostrar uma cidade, quais as faces, estilos, cores, sentidos e movimentos. As histórias, mesmo que rápidas, são marcantes mesmo que algumas tenham um fundo de fantasia e ficção, - Vampiros in love, pois é... Antes de Crepúsculo, pasmem! hohoho - o filme fez o sucesso que prometera, e deixou com um toque de quero mais. Tiramos à idéia de Discovery Channel e conhecemos a verdadeira cidade por seus moradores/amores.

Difícil lembrar de uma que não gostei, mas fácil de lembrar quais histórias marcaram neste longa/curto film. Um sentimento de quem não está mais entre nós, uma senhora que procura seu entendimento de existência, um casal que de tão diferentes, são tão únicos a si. A necessidade do dia a dia, a distancia inexistente. Enfim... Um filme que te faz pensar no amor em todas as suas formas, puro. Relembre, veja o trailer abaixo:



E em outubro deste ano, 11 novas histórias de amor, de 11 diretores, serão contadas em Nova Iorque. Não é a primeira vez que a big apple tem curtas histórias para contar sobre o amor, mas é a primeira vez que ela vira foco de como realmente é - em amour, people! -. O beneficio do mesmo produtor é a ênfase ao amor e a cidade. Podemos esperar então, lugares diferentes dos turísticos mostrados em todos os filmes, mas o perigo aqui mesmo é cair em mais um filme note-americanizado – veja a lista de atores e atrizes -. Para fugir disto vamos usar o mesmo beneficio do primeiro, de vários diretores de várias partes do mundo e ver o que acontece.

O filme, “Nova Iorque, Te amo” [New York, I Love You - 2009], tem estréia norte-americana marcada para o dia 16.

A obra parte do mesmo produtor de Paris, Emmanuel Benbihy e entre os diretores convidados estão grandes nomes, como: Mira Nair, Brett Ratner e Shekhar Kapur. Natalie Portman, além de fazer parte do elenco, dirige seu segundo curta no filme. Além dela, o elenco conta com Andy Garcia, Orlando Bloom, Christina Ricci, Rachel Bilson, entre vários outros nomes de peso.

Vemos então que a indie Natalie Portman continua na franquia. Mas tenho receio de ver Orlando Bloom e Shia LaBeouf, dois atores de épicos comerciais, como se saem em um film art?

As histórias se passam nos principais bairros de Nova Iorque, e não tem ligação entre si, mas como no filme anterior, o encerramento traz o encontro de todos os personagens. Ou seja, indico a todos. Ah, e parece que o produtor tem planos de fazer mais dois filmes, um em Londres e outro no Rio de Janeiro. Nada contra a cidade maravilhosa, mas acho que São Paulo teria um enfoque mais art/cult, não?

O trailer já está na internet há algum tempo, confira:



abs,